domingo, 9 de novembro de 2008

O Museu Ettore Guatelli


Numa cidadezinha perto de Parma, Itália, a mais ou menos uma hora de Milão, existe _ e resiste _ um Museu diferente de todos os outros que já vi. Porque não é um museu de objetos ou obras raras e "importantes". É o museu das (in)nutilidades. Escrevi (in)utilidades, assim, porque os mais de 70 mil objetos expostos, um dia foram utilíssimos e ajudaram a construir toda uma civilização de camponeses italianos. Hoje, poderiam ser considerados lixo. Não foram restaurados, nem limpos, muito menos lustrados. Foram apenas cuidadosamente recolhidos. Não estão em vetrinas, mas sujeitos às ações naturais, ao pó, ao toque, ao tempo que continua a torná-los, a cada dia, mais significativos.
No Museo Ettore Guatelli esse "lixo" é lindamente disposto e organizado como se fossem desenhos nas paredes, em composições marcantes e surpreendentes, que fazem o viajante, opa!, o visitante, perder o fôlego. São simples e cotidianos objetos de casa, roupas, móveis, instrumentos de trabalho, brinquedos, e um outro sem-fim de categorias entrelaçadas. Cada um com a sua singularidade que é dada, justamente, pelo conjunto. Uma rede infinita de "significados significantizados", como uma linguagem ou uma bela canção. Coisas que só existem a partir da interpretação, da criação de quem um dia com elas se relacionou e, agora, de quem com elas ainda insiste em se relacionar, para fazer história, para dar sentido.
Mas - vocês podem estar se perguntando - o que tudo isso tem a ver com a temática proposta neste blog? Com o Quintal (enquanto símbolo e sobretudo enquanto signo da auto-projetação infantil), com a Infância, com a Cultura da Criança?
O Museo Guatelli é lugar político para as crianças modernas. É lugar sagrado para ir e levar os pequenos. O Museu Guatelli é um Quintal em forma de museu. Cada pessoa _ e cada criança principalmente! _ que vai ali, recebe lições profundas de criação, de História Vivida, de interação, de registro, de transformações, de impermanência, de diferença (que não precisa ser desigualdade), de poesia, enfim, de Vida. Porque, como dizia o sábio senhor Guatelli, adorador dos objetos, que os recolheu durante mais de 70 anos e depois os organizou no Museu, "as coisas tem vida". Esses lugares de coisas vividas e por-viver podem significar muito pra um Sujeito perdido num mundo fragmentado como o nosso, principalmente, repito, para as nossas crianças. As crianças que ainda brincam no Quintal - e as que brincaram um dia - sabem muito bem essa lição da vida das coisas, dos espaços, da natureza. As que não tiveram mais esse Reino, podem descobri-lo ainda, em espaços como o Museu Guatelli.

Este é meu texto de inauguração desse novo projeto que aceitei fazer junto com a Cibele. Comentários serão muitíssimo bem-vindos. O bom de um blog é fazer conspirações...
Sintam-se em casa _ aliás, sintam-se no quintal de casa _ pra jogar conversa fora com a gente.

_Claudia Souza_








2 comentários:

Elisa disse...

achei esse museu a coisa mais linda! espero poder visitá-lo em breve.
obrigada pela dica maravilhosa e parabéns pelo blog delicioso.
beijos,
Elisa

Anônimo disse...

Oi, Elisa!! Pois é, esse é figurinha premiada na viajaçao pela Europa, nao perca mesmo nao! Beijos e obrigadissima pela presença aqui.

 
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