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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Palavras

Nuns encontros de leitura que tenho feito, estou utilizando uma técnica que aprendi na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte. Primeiro, leio o texto sem mostrar as ilustrações, combinando com as crianças que podem imaginar as cenas, os personagens, os acontecimentos.

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Nessa hora, a força é toda jogada na voz. Tento não dramatizar, não sugerir demais, não chamar a atenção pra mim, pra deixar à imaginação de cada um o melhor da festa.A voz escorre baixo e devagar, com as pausas e as tensões justas ao que estou dizendo. Se consigo fazer bem essa tarefa, a leitura fica parecida com uma canção de ninar: enleva.

Depois de ler, a gente conversa e eles me contam como imaginaram, como “enxergaram” a história. E só depois mostro as ilustrações, isto é, como o ilustrador a enxergou. É um momento muito gostoso esse, de confrontar como pessoas diferentes imaginam diferente, de avaliar estereótipos, de levantar outras possibilidades. Além disso, estimula a vontade de levar o livro pra casa e fuçar nas ilustrações (o que é bem bacana, porque as imagens escondem mensagens secretas que só uma leitura mais acurada revela).

Pensei que as crianças iam se opor a essa ideia. Estão tão acostumadas a ouvir histórias coladas às imagens (tem muita gente boa que diz que criança lê imagens, não palavras). À velocidade do vídeo. Às cenas teatrais, aos recursos cênicos mais variados acompanhando as palavras. Eu sempre observo que as crianças modernas têm certa dificuldade pra escutar, a gente tem de repetir a mesma coisa várias vezes pra elas…

Mas não! Elas não só topam na hora como adoram a experiência. Algumas fechavam os olhos, outras até os apertavam pra imaginar melhor. E todas se deixaram levar pelo texto. Escutaram de verdade, super ligadas, sem nenhuma interrupção, colhendo cada palavra que eu ia dizendo como se fosse um fruto raro.

Uma professora me contou que, no dia seguinte, foi ler um livro em classe e uma menina perguntou:

_ Mas nós vamos poder imaginar?

Concluí: num mundo tão “multitasking” quanto o nosso, poder ser “mono” é uma preciosidade.

_Claudia_

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Educando no lado B

As escolas mais democráticas  são comumente chamadas “escolas alternativas”. O nome, como a gente já falou aqui, não é muito bom, mas demonstra que elas se posicionam como uma opção diferente das escolas tradicionais.

No discurso dessas escolas, com as quais simpatizo muito, aliás, não raro aparece um “fazer diferente” e uma crítica ao “convencional” e ao “tradicional”.

No entanto, o diferente não é uma qualidade em si. Exceto na arte (e mesmo nela, a pop art apareceu pra mostrar que, às vezes, o mais inventivo é a própria reprodução). 

O problema é que, às vezes, fazer diferente e buscar uma alternativa são atitudes que se apresentam virtuosas por si só. E aí, corremos o risco de cair numa educação para a exceção. A psicanálise gastou boas linhas sobre esse lugar, o lugar de exceção.

Nesse lugar, muitas vezes, a identidade ou a subjetividade estão tão ameaçadas quanto no padrão. A exigência de um currículo “diferente” se torna tão estreita quanto o currículo padrão. E pior, ele esconde suas marcas quando se diz democrático.

Nada disso abala a minha crença numa educação democrática, lugar em que me formei e onde educo os meus filhos, no entanto, quando vejo o adjetivo “excêntrico” sendo utilizado de forma positiva, uma pulga teima atrás da minha orelha.

E da sua?

_Cibele_

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A infância no século XXI… segundo Quino

O autor da Mafalda, sempre muito direto.

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_Claudia_ (agradeço à Anna Mourão por me mandar as imagens)

domingo, 15 de maio de 2011

Pensar além

Eu tinha botado um vídeo sobre isso outro dia, lembram?

Aqui na Itália nos últimos dias  está muito forte a discussão sobre a Síndrome do Déficit de Atenção e Concentração. Muitas pessoas estão (finalmente!) reagindo contra o uso indiscriminado de psicofármacos em crianças. (Aliás, eu sempre disse que achava isso uma loucura, esses remédios anulam as ações externas, “amansam” a criança mas internamente a deixam ainda mais agitada. Sem contar que o diagnóstico fácil, ao inventar uma “síndrome”,  põe de lado inúmeras outras questões da criança moderna e aborta possibilidades de mudanças no seu contexto social).

No Salão do Livro de Turim foi lançada uma mega campanha com adesão de diversos intelectuais, artistas, escritores, etc, chamada “Pensare oltre” (= pensar além), contra o diagnóstico fácil, os rótulos, a homologação e tantas outras deformidades causadas pela chamada “psicologização da infância”. A proposta é justamente mudar as condições, o contexto. Ao invés de reprimir e de impedir, oferecer outros modelos de Educação para que as crianças possam se expressar e realizar todas as suas capacidades, as quais são vistas como diferentes e variadas. Mas o básico é poder – ter o direito de -  ser criança.

Um dos participantes é o cartunista Bruno Bozzetto, muito conhecido aí no Brasil também. Olhem que legal esse vídeo dele:

 

_ Claudia_

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Vivendo e aprendendo a jogar _parte 2

Não acompanho esporte, mas fui assistir ao filme do Senna, acompanhando meu marido. Do ponto de vista do cinema, é uma das piores coisas que já vi. O roteiro é uma colagem cronológica grosseira e a sensação de que valeu a pena ter assistido, se deve só e unicamente à história de um cara muito competente naquilo que se propunha a fazer dentro de um jogo espúrio.

A tensão entre a competência de um indivíduo contra um sistema de cartas marcadas, coerente a várias situações micro e macropolíticas, se dá pela ameaça do cinismo garantidor da ordem ou do aniquilamento do sujeito. Ambos resultados igualmente indesejáveis.

É certo que qualquer discussão ética ou política já se relaciona, por princípio, com a infância, mas passo a frente, vez em quando alguns exemplos caem no colo.

Não há educador que não saiba da importância do brincar, sobretudo na primeira infância. Contudo, a maioria das escolas tradicionais de Belo Horizonte aderiu completamente a ideia da alfabetização até os 5 anos, o que se reflete sobretudo nos exames de seleção.

Surpreendidas, as escolas “alternativas” (não alternativas às pedagogias mais modernas, mas alternativas às políticas que atendem a outros interesses que não a própria educação) se veem em uma situação cuja equação tende a duas resultantes arriscadas: ou acolhem o risco de estarem fora do sistema ou se adequam só o suficiente para terem fôlego de protestar. Não considerarei aqui o cinismo uma resultante válida. Tampouco o aniquilamento total do projeto de uma educação infantil coerente com o que se sabe sobre as crianças. Para as duas soluções válidas, ainda dois riscos. O primeiro, da própria sobrevivência e o segundo, da incoerência. Decisões difíceis.

Voltando ao Senna, é o inicinho do filme, ele e os pais dando uma entrevista em que a mãe declara algo mais ou menos assim: “Foi um bom ano de trabalho e isso é mais importante do que os títulos. Foi um bom ano sobretudo de trabalho honesto.”

O que não impediu que o piloto no Japão, em 1990, jogasse o jogo contra o qual ninguém queria protestar.




Quem de nós ao fim do ano poderá dizer que teve um bom ano de trabalho?

Cibele

domingo, 11 de julho de 2010

Na contramão da imagem e da tecnologia

Em matéria da Folha de São Paulo, como a linha pedagógica desenvolvida a partir das idéias do pedagogo alemão Rudolf Steiner em 1919 tem ganhado mais e mais espaço no Brasil, defendendo uma educação baseada na imaginação, na cultura oral e manual.

Considero muitas coisas interessantes nessa linha (a perspectiva político-filosófica é muito válida), mas tenho algumas divergencias. Em alguns pontos são excessivamente radicais (o que cabia na época das primeiras escolas Waldorf, como reação ao sistema pedagógico vigente no contexto em que foi criada – nada se inventa sem certo radicalismo -, mas agora e em outros contextos parece meio anacrônico). Acho que dá pra seguir as linhas mestras de Steiner de um modo menos restritivo.

Alguns pais levam pro lado do “pode-não pode” com muita facilidade, sem se aprofundar o suficiente na perspectiva. Aliás, muito do que antes eu via como estrutura da Pedagogia Waldorf, hoje já consigo entender como deformaçao de leitura dos pais.

Lembro de várias crianças que frequentavam essas escolas que, com tipo 5, 6 anos me pediam desesperadamente pra lhes mostrar letras, ver TV, brincar no computador ou com brinquedos de plástico, eram fascinadas por carne … enfim, a lista do proibido virando desejo. Natural.

Outra coisa que me causou impressão foi a conduta de uma professora Waldorf minha conhecida que, tentando convencer o filho de 4 anos a beber suco de laranja natural, lhe dizia que aquela bebida era “a mágica luz do sol que lhe traria todo o poder do mundo”. Sinceramente, não gosto dessas divagaçõs poéticas infiltradas nas situações cotidianas. Me parece um golpe duro no desenvolvimento da racionalidade. Ela me explicou que esta era uma conduta típica da perspectiva no sentido de favorecer a imaginação. Será?

Enfim, pra completar minha crítica (por sinal muito de fora, porque nunca trabalhei em uma escola Waldorf ou estudei a fundo esta pedagogia) vejo que acaba virando uma espécie de grupo muito definido (pertinho da “moda”), inclusive porque na maior parte essas escolas são bem caras, permitindo o acesso apenas a uma pequena parcela da população que veste a capa de “alternativa” pagando muito por isso.

De todo jeito, e com tudo isso, a Pedagogia Waldorf ainda é uma boa opção: pode fazer muito bem a certas familias com determinado estilo de vida e, pros reles mortais, menos mal que outras linhas baseadas na virtualidade, na preparação pro futuro (escolas de mini-executivos, também muito comuns hoje em dia), no pragmatismo, enfim, que o imenso manancial de serviços que caracterizam a “inanição da inovação” (Edgar Morin).

As crianças que frequentam as escolas Waldorf fazem parte das poucas privilegiadas que ainda têm o direito de brincar por brincar.

_Claudia_

terça-feira, 6 de julho de 2010

Tem uma coisa que eu não entendo...

Por que em algumas escolas o dia do brinquedo some no Ensino Fundamental?

_Cibele_

terça-feira, 29 de junho de 2010

Pra qual Escola eu vou?

(Ainda pensando na carta da Carolina...)

Ares de Brasil. Reencontro pais de crianças que acompanhei desde pequenininhas. Cresceu! Esticou! Mas a carinha é a mesma. Noooossa, não teria reconhecido! Virou um rapazinho… uma moça! O tempo voou!


A questão continua a mesma: pra qual escola eu vou. Os que já estão, que já se decidiram, não estão convictos, não tem 100% de certeza. “É uma decisão temporária”… “está sub judici”… “estamos avaliando”…


Penso que isso é efeito colateral do sistema educacional do Brasil. Da existência e da prioridade que é dada às escolas particulares pelos cidadãos de classe média/alta. De ter muita opção.


Cada escola, como serviço privado, tem a sua identidade, a sua proposta (a pior coisa que pode acontecer a uma escola é começar a existir sem proposta, comentava com algumas educadoras), o seu projeto, a sua personalidade. Dá a impressão de que pra cada criança, pra cada família, tinha de ter uma escola diferente, sob medida. Afinal existe um serviço à venda.


Não é assim, claro, e então fica sempre faltando. Não existe a escola perfeita, existe aquela mais próxima das nossas convicções, do que pensamos seja mais importante pros nossos filhos. A escolha passa necessariamente por aí. Uma escolha, além de limitada, circunstancial, pois os sujeitos envolvidos (escola, criança e família) mudam continuamente, não estão estagnados , fazem História.


Nos últimos anos, tenho vivido, num outro contexto, a realidade da escola pública, que é bem diferente dessa. E devo dizer que, embora tenha também seus problemas, me agrada. No frigir dos ovos fico chateada que o Brasil tenha se encaminhado pra privatizaçao da educação. A opção pela escola particular, da parte de quem pode pagar, não é espontânea, responde a uma escola pública que enfrentou sérios problemas e que agora procura reagir, mas ainda precisa de tempo.


Embora eu saiba que em nível privado as transformações necessárias encontrem mais espaço pra acontecer, ainda desejo que a escola pública brasileira retome seu lugar central.


Tudo depende de contextos e de contingencias. Mas taí a Escola da Ponte de Portugal (foto), ou o sistema de Reggio Emilia na Itália (colaboração publico-privado), pra mostrar do que a estrutura pública é capaz.


_Claudia_

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Outros olhares

Muito boa a discussão colocada pelo Garrocho aqui. Coisa importante de se pensar, de “dar tratos à bola”. Afinal é um terreno cheio de meias-verdades-estabelecidas, nada mal desconstruir alguns conceitos “sagrados”.

Em se tratando de Educação, penso que seja um jogo de primeira educar novos olhares, mostrar novas possibilidades de escolha, ampliar horizontes. E a Arte Contemporânea serve como uma luva pra isso. Quer a gente goste dela ou não.

Legal também este vídeo que ele recomenda.

_Claudia_

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Como diria a célebre Giu, "Chamando todos os carros"

Bora todo mundo assinar a petição on-line realizada pela Rede Nacional Primeira Infância contra a PL 6755/10 (originalmente PL 414/08) de autoria do Senador Flavio Arns que propõe a redução da entrada de crianças de 6 para 5 anos no Ensino Fundamental.

_Cibele_

quarta-feira, 3 de março de 2010

Links

E por falar em educação democrática...Super bacana esse conceito de bullying pedagógico! Não percam essa entrevista do Instituto Alana.

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E não deixem de dar uma passadinha no blog vizinho Cultura do Brincar para ler o post sobre O fim da infância. Vir aqui e não ir lá é desfeita!

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Cibele - em momento verborrágico e prolixo

terça-feira, 2 de março de 2010

Mais sobre adaptação escolar


Passadas as adaptações mais emergenciais de 2010, fiquei pensando nela como num tripé: família, criança e escola.


As famílias, peça chave nesse processo, ora dão aval, ora pedem colo. Cada criança tem as suas demandas e é claro que no meio disso tudo podem haver circunstâncias...a chegada de um irmão, uma mudança de casa ou cidade, uma separação, a mãe que volta a trabalhar... E há a escola, a adequação da cultura daquela escola especificamente à cultura familiar. Tudo isso os educadores sabem bem. O que tem me chamado a atenção é uma outra variável que consiste na forma como a cultura da escola se abre para o mundo o e que me parece influenciar bastante no sucesso das adaptações.

Adaptar numa escola de altos muros, com regras rígidas e com grupo seleto é muito mais difícil do que numa escola aberta e flexível. Uma escola realmente arejada dialoga com o mundo, absorve a sua diversidade e dá espaço para que o novo integrante traga a sua bagagem. Uma escola arejada acolhe porque entende que o acolhimento é o primeiro capítulo da transformação que a educação possibilita.

E qual seria o antônimo de arejada? Abafada? Asfixiada? Enclausurada? Nas escolas de muros altos, com seleção rigorosa e crianças que estudam juntas desde o primeiro ultrassom , há mais certezas do que dúvidas e não há diálogo real nessas circunstâncias. O novato é praticamente uma ameaça, porque ele traz o novo, o lá de fora que instaura incertezas. Por isso é preciso cortar-lhe os cabelos e apropriar-se rapidamente de todos os seus pertences. Perde o novato, perdem os veteranos...

E é bom lembrar que ser aberto não significa de forma nenhuma abrir mão de uma identidade ou negociar o inegociável. Aliás abertura pode ser, ao contrário, um princípio, uma cláusula pétrea.

E mais...a idéia de que adaptar-se a um grupo pequeno é mais fácil pode ser enganosa. O autoritarismo se adere super bem a pequenos grupos e muito raramente alcança grupos maiores. Quando isso acontece, vira fenômeno histórico, investigado por cientistas sociais, filósofos e psicanalistas.

Independente do número de alunos ou da área da escola, é muito mais fácil adaptar-se numa escola que viva os diversos significados do adjetivo grande.


_Cibele_

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

domingo, 3 de janeiro de 2010

Caracolando 4 - O eterno novato


Imagem da artista plástica Ilonessa


Cada escola possui uma cultura diferente. Mesmo dentro da mesma cidade ou do mesmo bairro, as escolas reafirmam e hierarquizam um conjunto de valores que diferem muito uns dos outros. As crianças (e mesmo os profissionais mais antigos) que começam numa escola desde pequenininha tendem a naturalizar o que para o novato é da ordem da cultura.

Depois de estudar em quatro escolas diferentes na educação infantil, minha filha desenvolveu um olhar muito observador que embora seja um recurso útil para a adaptação, não deixa de ser sofrido na medida em que aumenta o sentimento de não-pertencimento. Ela sabe que existem várias verdades e várias formas de organizar prioridades.

A família nômade tende a se fechar nela mesma. Sanduíche de família _ é como nos apelidamos. Alguns valores próprios da minha família não são negociáveis em contexto algum e foi necessário explicar que é preciso respeitar o outro, mas que somos diferentes. Foi assim que passamos pelos ambientes mais tradicionalmente católicos sem nos tornarmos uma família católica.

Algumas escolas, especificamente, tratam de fechar seus muros e fazerem-se pequenas. Em alguns anos, os alunos tornam-se parecidos até mesmo fisicamente. Para isso, as instituições tratam de incutir nos pais essa mesma mentalidade. Algumas se utilizam de recursos como intimidação em público para banir qualquer tentativa de questionamento ou mesmo de uma forma diferente de ver o mundo. Quanto mais fechada é a escola, mais o novato lhe sugere uma ameaça. Ainda que seja impressindível que uma escola tenha uma identidade e não seja um aglomerado amorfo, é preciso lembrar que a tolerância e a abertura para lidar com o diferente são desafios muito contemporâneos.

Para sobreviver num ambiente tão fechado assim, é preciso fazer uma conversão. Como em alguns rituais religiosos, os cabelos são cortados e é deixado para trás o passado, a história daquela criança.

Para quem é nômade, nada mais sofrido, já que com contextos tão mutáveis, é a própria mudança que define a nossa identidade. Sem nossos "cabelos" não temos mais história, já que para o nômade aquela cultura presente também é transitória.
Nós somos hoje uma família de malas prontas, um pouco paranaenses, um pouco mineiras. Um pouco montesclarenses, um pouco divinopolitanas. De volta definitivamente a Belo Horizonte, não somos mais completamente belorizontinos e precisamos por isso de uma escola com horizontes bem abertos para diferenças.

Acho que encontrei esse lugar!
_Cibele_

domingo, 22 de novembro de 2009

Símbolos, escola e cultura

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Arte: Andy Wahol

Uma mãe finlandesa, que mora na Itália e tem dupla cidadania, entrou com uma ação junto à Corte Suprema Européia para a retirada dos crucifixos nas escolas italianas. E a CSE aprovou, alegando que as escolas são instituições laicas, não podendo portanto expor símbolos de uma ou outra crença religiosa. A opinião pública italiana está majoritariamente contrária a esta decisão e o país deve entrar com recurso. As pessoas acreditam que o crucifixo não é um símbolo católico, mas da tradição local.

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Tramitando no Parlamento italiano a proposta de oferecer nas escolas, além das já existentes aulas de religião católica, aulas opcionais de religião islâmica.

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Numa cidadezinha perto de Milão, governada pelo partido de ultra-direita Lega Nord, está acontecendo desde o dia 25 de outubro, com final previsto em 25 de dezembro, o projeto “White Christmas” (“Natal Branco”) , uma “operação pente fino” contra os imigrantes cuja permissão de permanência em solo italiano está prestes a vencer. Alega-se que o Natal é uma festa cristã e que os imigrantes, a maior parte de outras culturas, “poluem” a sua “brancura”. As escolas locais, defendendo suas crianças imigrantes, saíram ontem em manifestação contrária a esta medida, juntamente com exponentes da Igreja Católica e ONGs em prol dos imigrantes.

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O presidente francês Nicolas Sarkozy proibiu na França o uso da burca, pois esta vestimenta da tradição muçulmana fere a constituição francesa (que professa que todas as pessoas, homens e mulheres, têm os mesmos direitos perante a sociedade e a lei, rejeitando toda e qualquer forma de servidão), além de esconder a identidade da pessoa em questão, o que poderia ser perigoso em termos de segurança. Em muitas escolas francesas os professores puderam finalmente ver as faces das mães de seus alunos muçulmanos. Algumas, entretanto, se recusam ou são impedidas pelos maridos de sair de casa sem a burca, condenando-se ao isolamento social.

_Claudia_

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A escola da moda

Outro dia a Cibbele falou aqui das escolas construtivistas. Ops, esqueci, o correto é dizer “construtivista-sócio-interacionista” né Ci hehe

Aqui na Itália, o top de linha do momento, de quem pode ou quer  pagar escola particular (porque tem sempre a opção da pública),  são as escolas estrangeiras, principalmente de língua inglesa, mas tem também as francesas, suiças e alemãs. Tem até a chiquérrima (e carérrima!) International School que é até interessante, porque lá estudam meninos do mundo inteiro, filhos daqueles pais sem fronteiras, que vivem girando pelo mundo.

Quando morava no Brasil, eu já me perguntava o que faziam aquelas crianças brasileiras, filhas de pai e mãe brasileiros, netas de brasileiros… numa escola americana ou  européia, onde as tarefas são feitas em outra língua, o calendário segue o clima do Hemisfério Norte, onde aprendem conteúdos isolados de  uma outra cultura dentro de uma país com uma cultura, principalmente popular, rica como a nossa.

Fico imaginando os pais desses meninos tentando ajudá-los num dever em uma língua desconhecida ou quase. Fico principalmente pensando nas lacunas de aprendizagem de uma pessoa que frequenta uma escola assim e que no resto do tempo não tem absolutamente nenhum contato nem com a língua nem com aquela outra cultura. Pra mim nem a língua aprendem direito (falta o contexto). E daí entram no círculo vicioso de não assimilar também os conhecimentos mais elaborados que vão sendo transmitidos. Comunicar-se em outra língua não é difícil com boa vontade, as crianças são boas nisso. Mas – e isso eu digo de cadeira – ser inteligente em outra língua não é fácil não!

Mas fazer o quê. Coisas da moda. Os pais acham que estão fazendo um bem aos filhinhos, que estão dando a eles mais chance numa economia globalizada. Será? No fim, o que eu acho mesmo é de duas uma: ou essa gente cheia de boas intenções  é muito ignorante a respeito de aprendizagem ou quer mesmo é ser chique, ser VIP, ostentar em cima do filho.  Aqui, como aí no Brasil, é símbolo de status estudar nessas escolas.

Se ao menos esse pessoal economizasse os rios de dinheiro que gastam numa escola dessas pra fazer os filhos viajarem, estariam fazendo muito mais "pelo futuro deles".  Porque não tem nada melhor que aprender outras línguas dentro do contexto certo, abrindo a cabeça também pra trans-culturalidade. Saber falar inglês ou francês não é nada se você não compreende a história e as contradições desses povos. E pra isso, só in loco. Tô errada?

_Claudia_ em estado de ânimo Graúna Graúna2

sábado, 26 de setembro de 2009

Crianças educadas em casa

Mãe profissional Picasso Pablo Picasso

O supra-sumo do profissionalISMO materno taqui. Isso é que é querer-ser LITERALMENTE mãe profissional. (Uma curiosidade: não se tem notícia de pais que assumem essa função, é coisa de mãe mesmo, mesmo que a idéia seja do pai).

O que vocês acham? Posso estar errada – e adoraria ver opiniões diferentes – mas tendo a pensar que a Escola vai mal, mas não é nenhum monstro ao ponto da gente (leiga!) ter de segurar as crianças em casa e virar professora, sem formação pra isso. Acho maluquice. Onipotência demais achar que tudo que seus filhos precisam está em você. E seus derivados: achar que eles são incapazes de resolver suas questões em outros ambientes que não o familiar, querer transmitir conhecimentos para os quais não recebeu formação específica, pretender preservá-los dos sofrimentos normais da vida, etc.

Pra mim (sem contar as coisas todas de socialização, institucionalização, Educação Formal e especializada, etc), a melhor coisa da Escola é meu filho ter outros adultos de referência além de mim e de meu marido.

PS.: Muito diferente o caso de famílias (por exemplo, nômades) cujos filhos não podem acompanhar o calendário escolar e portanto participam de programas de educação a distância.

PS2: O link me foi gentilmente mandado pelo Ed Siqueira.

_Claudia_

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Na carona dos ISMOS: O construtivismo, nossa religião


Como nômade, tive a oportunidade de circular por inúmeras escolas em diversas cidades do Brasil e tenho notado que o construtivismo tem se prestado a um papel quase religioso.

O construtivismo não é método, mas filosofia, e por isso, presta-se a inúmeras leituras e práticas. A quase totalidade das escolas se define dentro dessa concepção, embora haja escolas totalmente diversas dentro do mesmo barco. Uma vez que a maioria dos pais com mais de trinta anos foram educados no sistema tradicional, a escola passou a ser a detentora desse conhecimento codificado, envolvendo-o com ares de um mistério quase esotérico.

Certa vez, uma diretora de escola chegou a dizer explicitamente: os maiores dificultadores do desenvolvimento dos filhos são os pais. Ãn??? Não seriam os maiores aliados? Anulada a origem dos alunos e suas heranças, eles convertem-se às escolas-templos e a seus conhecimentos fetichizados. São inicializados. Já os pais, tratados como hereges, não são mais fontes de conhecimento. Se um menino pergunta aos pais se CASA se escreve com S ou com Z, não podem lhe dar a resposta. A resposta misteriosa, iluminada, deve ser encontrada pelo aluno. Aparentemente sozinho, ele segue em busca de uma iluminação, conduzido por seus gurus. Um pai arrisca...Pense meu filho, o que você acha? mesmo sabendo que as evidências sonoras apontam para a grafia errada.

Depois de um tempo, os alunos de escolas-seitas ficam muito parecidos. Vestem-se de forma parecida. Falam de forma parecida. Uniformizados, não há diversidade. Estranho, não era para cada um achar seu próprio caminho? Ao fim do período de iniciação, saem ao mundo os alunos convertidos que pensando ter dominado os princípios do universo, terão de se deparar com um mundo de múltiplas bíblias.

Não se trata de retroceder aos sistemas bancários de educação, mas de começarmos a desconfiar dessa unanimidade. E dos seus apócrifos, como disse bem meu professor outro dia.
_Cibele_

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Dinossauros do Brasil - descolonizando a paleontologia

Calhou da Clau comentar mais de uma vez sobre o surgimento dos dinossauros no currículo da educação infantil com a minha própria filha estar se aventurando pela pré-história e lá fui eu atrás das pegadas desses bichos.

Não me lembro de ter estudado sobre eles na escola, embora me lembre bem da professora falando sobre a pré-história, surgimento da roda, domínio do fogo e pinturas rupestres. Os nômades, os fósseis, da pedra lascada à pedra polida. Lembrei da clássica excursão que as crianças belorizontinas fazem à Gruta da Lapinha, onde Peter Lund achou fósseis de animais pré-históricos e o crânio do Homem de Lagoa Santa, que viveu, calcula-se, há 10 mil anos.

Mas foi no Museu de Taubaté, conhecendo o Paraphysornis brasiliensis do qual já falei aqui, que me ocorreu fuxicar mais sobre os animais pré-históricos do Brasil e América do Sul. Primeiro descobri incríveis aves gigantes e carnívoras. Mas quem poderia imaginar que um réptil herbívoro gigante, como esse aí embaixo, foi encontrado ali mesmo, em Uberada? E esse gigante carnívoro à esquerda? Alô, alô fabricantes de brinquedos! Chega de Tiranossauro Rex!

É bem verdade que a paleontologia brasileira ainda engatinha e não é fácil achar informações sobre os animais pré-históricos brasileiros, mas deixo aqui a minha pequena contribuição, uma lista de links, que espero, sirva de inspiração:



http://pt.wikipedia.org/wiki/Dinossauros_no_Brasil
http://pt.wikipedia.org/wiki/Vale_dos_Dinossauros
http://www.valedosdinossauros.com.br/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Paleorrota
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u15233.shtml
http://virtualbooks.terra.com.br/livros_online/dinossauros_do_Brasil/capa.htm
http://acd.ufrj.br/mndgp/pv/index.html
http://www.colegiosaofrancisco.com.br/alfa/caracteristicas/dinossauros-do-brasil.php
http://www.cprm.gov.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1096&sid=129#dinobrasil
http://www.invivo.fiocruz.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=20&sid=9
http://cienciahoje.uol.com.br/controlPanel/materia/view/2818
http://ich.unito.com.br/controlPanel/materia/view/2812
http://www.smartkids.com.br/especiais/dinossauros-brasileiros.html
http://www.museuhistorianatural.com/



Recomendo também o segundo volume dessa série de dvds. O primeiro também é legal, mas o segundo se dedica aos animais da américa do sul.





Quem quiser engordar a minha lista, será muito bem vindo.



_Cibele_

domingo, 9 de agosto de 2009

A escola do Era uma Vez

Foto: escolinha de bonecas no Museo del Giocattolo


O Museo del Giocattolo di Milano tem uma sessão inteira dedicada à Escola. Tem inclusive uma sala montada como sala de aula do século XIX. As carteiras, a cátedra, os quadros educativos na parede. Esparsos, alguns objetos desse contexto: a bolsinha da professora apoiada na sua mesa, a palmatória (terrível instrumento de punição de crianças desobedientes e/ou distraídas, que pode ser também vista no Museu Histórico Abílio Barreto), a maleta do estudante (incrivelmente feita de papelão, eu juraria que era de couro), a baqueta (varinha que os professores usavam pra indicar os temas e às vezes pra intimidar a classe), lápis, canetas estilo tinteiro, papéis, livros e cadernos antigos.

Durante a visita comentada, os operadores fazem com as crianças uma representação de como era ser aluno nos tempos dos nossos avós.
Experimentem ficar 2 minutos imóveis, com a coluna ereta e os olhos fixos.
Se alguma criança se move antes do término do jogo, é convidada a experimentar a palmatória (de mentirinha, claro). Com a ressalva de que, naquela época, se reclamassem da punição corporal em casa, eram punidas de novo pelos pais.
Tentem escrever com estas penas aqui.
O mata-borrão é a parte mais difícil.

No final, uma comparação com a escola atual. As crianças suspiram aliviadas. E as professoras suspiram também... cansadas. É muito mais difícil lidar com espíritos livres =)



_Claudia Souza_
 
BlogBlogs.Com.Br