terça-feira, 30 de junho de 2009

Enquanto isso, do lado de baixo do Equador...

Discutimos se é crime ou não manter relações sexuais com menores, munidos das belíssimas informações que o jornalismo diplomado brasileiro nos oferece. Sugiro uma visita ao blog do Túlio Vianna para que a questão seja entendida, embora de forma alguma isso acalme as nossas indignações.

***

Também tendo a criança como pauta do dia, o toque de recolher para menores vai se alastrando em alguns municípios, não para protegê-los, mas (pasmem!) para proteger a população dos pequenos infratores. Eu gostaria de saber se, em Patos de Minas, a maioria das infrações é cometida por adultos ou por menores, porque se confirmada a minha suspeita, o toque de recolher deveria ser para os adultos, não?

Alguém aí no fundo lembrou do Eca? Sim, ele ainda existe...


_Cibele_

A espiral da infância

images “Encontro o pediatra que se ocupa de algumas creches. Gostaria de saber em que modo o recente projeto de lei sobre a segurança* influenciou a vida cotidiana das crianças. A conversa pega uma direção inesperada. Ele conta de uma jovem indiana, com dois filhos muito inteligentes e um marido extremamente imbecil. Ela veio pra Italia com um contrato de trabalho que depois venceu. Agora é obrigada a trabalhar “in nero” (isto  é, sem carteira assinada).

Quando era ainda regularizada tinha mandado buscar o marido e os filhos. O marido não se ambientou e pra desabafar suas frustrações bate na esposa e talvez maltrate os filhos. Vivem em uma garagem adaptada que custa mais de quinhentos euros ao mês, embora não tenha nem o “habite-se”.

O médico pára e me pergunta: “Em uma situação assim, pra você, quem paga as consequências?” Depois recomeça a falar, explicando-me que não é uma gripe ou uma otite mal-curadas a adoecer as crianças das famílias estrangeiras: é o clima pesado que respiram dentro e fora de casa. Parece que a depressão entre os filhos de imigrantes esteja aumentando, juntamente a outros distúrbios psicológicos. As crianças, principalmente as muito pequenas, precisam mais de amor que de cuidados. Enquanto a situação das mulheres, ou seja, das mães, não melhore, serão as crianças a pagar as consequências mais pesadas. O risco é que o mal-estar que trazem dentro de si  transforme-se em um modelo comportamental parecido com aquele a que são submetidas, criando uma espiral sem fim.

Pensava de falar sobre as escolhas erradas de um governo, pensava que um médico me fornecesse dados científicos sobre o perigo de algumas leis repressivas. Mas me vi, de novo, ouvindo a história de uma mulher maltratada e de crianças oprimidas.

O médico parece acolher o meu estado de ânimo e termina a sua história. A um certo ponto, a mulher indiana teve a coragem de ir pra um abrigo público. Depois decidiu voltar com o marido, com a condição de dormirem em camas separadas. Talvez fosse a primeira vez que aquela mulher tivesse posto uma condição a um homem. Talvez as crianças quebrem a espiral e a transformem em alguma coisa de novo, como só elas sabem fazer.

Ingy M. Kakese, nascida no Cairo de mãe egípcia e pai congolês, vivem em Roma desde 1976. (ingymub@libero.it)”

*Um pacote lançado pelo Governo Berlusconi com diversas medidas repressivas contra os imigrantes no país, inclusive considerando a clandestinidade crime.

Quis compartilhar esse artigo que li na revista Internazionale desta semana com vocês. Qualquer semelhança com as condições de grande parte das crianças brasileiras (e até européias, por outros motivos que não a pobreza)  não é mera coincidência. No fundo, a coisa acontece mesmo como disse a jornalista egípcia autora do texto: nos vemos sempre “ouvindo histórias de mulheres maltratadas e de crianças oprimidas”.  Até quando?

_Claudia Souza_

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Separar e acolher. Defender e engolir. Misturar e confinar._ A Crise da Infância


Há algum tempo atrás, quando eu falava aqui sobre aversão a crianças, a Clau me pediu que falasse sobre crianças misturadas demais aos adultos. Em seguida, veio o episódio Maisa pra mostrar como a infância anda mesmo embolada à adultez*. Mais exemplos? A discussão sobre a maioridade penal, a erotização precoce das crianças, os desenhos violentos, saltinhos para meninas, trabalho infantil e prostituição infantil. Durante algum tempo, minhas aulas de filosofia eram na sexta-feira, um dia após um programa sanguinolento-policial da Globo que passa (va) depois da novela das oito. Não havia espaço para outro assunto: as crianças ficavam perturbadas com o que viam.

Tudo isso parece contradizer um outro fenômeno: a eminência da criança-hiper-infantilizada. A criança romântica, idealizada, assexuada e sem conflitos que vemos em alguns canais infantis e o pior, nos pátios, nas ruas, por todo lado. A infância confinada culturalmente (conceito bacana do Edmir Perroti), impedida de dialogar com a cultura adulta. A criança defendida pelos hiperpais.

Não há como negar a complexidade desses eventos e me parece muito reveladora a conclusão de Meurer em sua dissertação de mestrado (já indicada aqui em outra oportunidade) sobre a crise da infância. Por enquanto, essa explicação me satisfaz:

A práxis social não dá garantias da continuidade da infância. Por isso essa categoria vai ser transformada em uma espécie de “instituição da cultura”, quando sua espontaneidade e plenitude revertem-se em objeto de cálculo da indústria cultural. (...) Adorno e Horckeimer, num diagnóstico bem sombrio de nossa época compreenderam que o “exagero convencional” tem como correlato a “frieza emocional".


*Vale pensar porque temos nomes pra infância, a juventude e a velhice, mas não tempos nomes pra falar na condição adulta.
_Cibele _

Problemas técnicos

Queridos leitores,

De alguns dias pra cá, o Quintarola vem se comportando estranhamente. Acusou para alguns quinteiros problemas de leitura e tem comido, sem aviso prévio, letras dos comentários. Após algumas colheradas de mingau, passa bem.
Se vier a se comportar assim novamente, peço que nos avisem, tá bem?
Obrigada

_Cibele_

quarta-feira, 24 de junho de 2009

No prelo

Lembram que eu tinha dito aqui neste post que talvez viessem outros livros-filhos por aí? Pois é. Já ‘tô “no prelo” de novo. Desta vez é a historinha “A princesa que salvava príncipes”. Acabei de assinar o contrato, também com a Callis. Ano que vem, em Bologna, tem mais filhotinho saindo do ovo  =)))

_Claudia Souza_

terça-feira, 23 de junho de 2009

As Redes de Fast Food devem dar brinquedos às crianças?

20090622mcds “Não porque eles sejam perigosos nem porque sejam um produto essencialmente comercial – um oficial quer impedir os brinquedos dos fast-foods porque eles estão fazendo as crianças ficarem mais  gordas. Preocupado com o aumento dos índices de obesidade em seu país, o procurador federal brasileiro Marcio Schusterschitz entrou com uma ação judicial para proibir as redes de fast-food de dar brinquedinhos junto com os menus infantis.

Segundo a reportagem da Reuters, ele considera que incluir esses brinquedos dá às crianças um incentivo extra para comer alimentos nocivos à saúde: “è necessário remover brinquedos que são usados para favorecer a venda de alimentos com baixo valor nutricional”, diz a petição oficial.

O que você acha? Os brinquedinhos de fast-food fazem com que as crianças prefiram junk-food?  Ou são apenas um inofensivo bit extra pra diversão na hora do lanche?”

Tradução livre  minha do post : “Should Fast Food Chains Give Kids Toys?”,  do blog “Serious Eats”, cujo link me foi gentilmente  enviado pelo compadre Ed Siqueira.

http://www.seriouseats.com/2009/06/should-fast-food-chains-give-kids-toys.html

Aí, hoje de manhã, o Ed resolveu “rechear” mais este post. Lá vai a participação dele tal-e-qual:

“O Procurador da República em São Paulo, Marcio Schusterschitz da Silva Araujo, fez uma recomendação em março para que as redes McDonald'as, Boba's e Burger King suspendessem as promoções que casam venda de lanches com brinquedos. Como a recomendação não foi atendida pelas empresas, no dia 15 de junho o MPF/SP entrou com uma ação para suspender a venda casada.
A história completa, com atalho para a ação movida, no site do MPF:
http://noticias.pgr.mpf.gov.br/noticias-do-site/consumidor-e-ordem-economica/mpf-sp-move-acao-para-que-redes-de-fast-food-suspendam-venda-de-brinquedos/
e a repercussão em outros veículos:
http://www.estadao.com.br/economia/not_eco387792,0.htm
http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u581289.shtml
http://ultimainstancia.uol.com.br/new_site/novonoticias/MPF+MOVE+ACAO+PARA+IMPEDIR+VENDA+DE+BRINQUEDOS+EM+REDES+DE+FAST+FOOD_64312.shtml
http://www.reuters.com/article/lifestyleMolt/idUSTRE55F07720090616
http://news.yahoo.com/s/nm/20090616/od_nm/us_fastfood

Obrigada de novo, compadre!

_Claudia Souza_

Promoção na Livraria em Branco

Tem promoção na Livraria em Branco da talentosa Sil Falqueto !!! Bora pra lá, gente!

ou

A Livraria em Branco faz aniversário e quem ganha é você (não resisti ao bordão, Sil)!!!


: )

_Cibele_

Igual mãe passarinha

Ainda esses dias a gente ‘tava conversando aqui no Quintal sobre desmame, fiquei lembrando de quando o Davi desmamou… e já se foram mais de 13 anos nessa história. Agora, aos 14 e pouquinho,  ele está fazendo os exames pra ir pro Liceo (a Escola Superior daqui, que eles fazem por 5 anos antes de entrar na Universidade). E daqui a alguns dias, terminados esses exames, parte de férias pro Brasil por 2 meses.  É homem feito, ou quase, o meu (pra sempre) menino.

Hoje de manhã, veio me mostrar o power point que fez pra sua tesina, a qual tendo escolhido ele mesmo o percurso, apresentará oralmente a uma banca de professores no último dia de exames, pra sintetizar tudo que aprendeu durante os 3 anos de Escola Média. Que lindo! O fio condutor dele é o Brasil. E  se chama: “A importância da própria Terra e das próprias raízes”.

É assim, me dizia meu marido outro dia. Os filhos vão avante e as mães se orgulham e se preocupam. Essas duas coisas são fisiológicas de ser mãe.

PS.: A mãe passarinha, quando “sabe” que o filhote já é capaz de voar sozinho, empurra-o do ninho com a cabecinha. Acho que ela deve morrer de preocupação – e de orgulho! – ao fazer isso.

PS 2: A cultura popular diz que “mãe afaga com a mão e empurra com o pé”.

_Claudia Souza_

domingo, 21 de junho de 2009

O Circo


foto minha


Mal acabo de falar que o circo não tinha ainda passado por aqui e fico sabendo que a lona está sendo montada! Só morando fora dos grandes centros é que se consegue sentir a ansiedade pelo novo. No meio de tantas opções de cinema, teatro, shows e parques, poucas vezes, enquanto moradora de capital, esperei por algum evento.

Minha filha, mil vezes mais ansiosa, tentava imaginar como seria. Eu, incorrigível, continuei a imaginar cenas clássicas de circo.

Chegou o dia e esperamos durante longos 40 minutos debaixo do sol. Toda a fila parece estar igualmente eufórica.

_Um tapete vermelho!_ se espanta um garoto logo na entrada.

_E muito dourado_ penso eu.

Batemos palmas para Elizabeth Diana, Michael Douglas e Beto Pinheiro. O circo, sigo pensando, é das artes a mais pós-moderna, porque desconstrói totalmente uma coisa caríssima à arte: a originalidade.

Enquanto isso, minha filha tampa a boca entreaberta, quando uma menina entra num cesto que é perpassado por espadas mágicas...

_Oooooohhhh!!!

Ah, acho que vou querer ir de novo, porque tão bom quanto ser surpreendido, é o conforto do previsível.

_Cibele_

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O Desmame

Quase um mês depois, fica mai fácil falar. O desmame do pequeno Samuel foi bem mais tranqüilo do que eu imaginava. Serviu pra por abaixo dois mitos: 1) de que o desmame tardio é mais difícil e 2) de que criança amamentada no peito é mais dependente emocionalmente.

Foram três noites de acorda-conversa-volta-pro-berço e três dias explicando que o leite acabou.

Só no fim consegui chorar ao ver um sachê do chá mamãe-bebê. Não de tristeza, mas de emoção ao ver como é bonito ver filho crescendo!

_Cibele _

Projeto Bira

Ah, não, Chris, esse link merece um post só pra ele, com destaque extra-especial. Maravilhoso!
Mais-que-obrigada!

Leitores do Quintarola, não deixem de conferir.

_Claudia Souza_

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Não gostei!

Uma das coisas mais bonitinhas de que eu me lembro do CLIC era quando os meninos diziam uns pros outros assim, em alto e bom tom:
- Não gostei!
Isso acontecia quando alguém fazia alguma coisa "errada", ou seja, não ao gosto do outro ou do grupo.
Eles às vezes eram tão pequenininhos que nem sabiam pronunciar direito e saía "não gotei". Mas já sabiam expressar seu sentimento de desaprovação de um modo simples e direto, sem dramas, sem acusações, sem aumentar o fermento da massa.
E essa frase era meio mágica. Servia pra resolver qualquer mal-estar. A coisa acabava ali, quem tinha se sentido contrariado ou ofendido se redimia falando, o outro pedia desculpas sem pensar em culpa, se explicava. Fim de papo. Todo mundo amigo de novo.

###

Quando penso nos amigos queridos de que já me afastei pela vida afora, ou que se afastaram de mim porque faltaram essas duas palavrinhas mágicas, me vem muita mágoa no coração.

(Pensando nesses comentários...)

_Claudia Souza_

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O Parque de Diversões

foto minha


Saí de casa imaginando romanticamente o parque de diversões que nos esperava. Várias cenas de filme na cabeça e as lembranças do Parque Guanabara e do parque Municipal em Belo Horizonte. Estamos no interior de Minas Gerais. Imaginei a família mineira saindo de casa no final da tarde de sábado. Ou de domingo, se a missa foi matinal. Maçã do amor, pipocas, cachorro quente, algodão doce, talvez. A roda gigante, dama do parque de diversões. O carrossel...

Chegamos. Exceto pelo fato de que as brejeiras valsinhas, rodopiantes como os brinquedos, foram substituídas por um bate-estaca de mal gosto (eu gosto de bate estaca, mas não daqueles), os parques itinerantes continuam sendo parques. Gritos de medo e gargalhadas. Alguns ursos enormes e charmosamente feios são as prendas. Um cachorro de rua aproveita-lhes a sombra.

Admito que não gosto do medo. Nem de mentirinha. Mas adoro o vento no rosto e a velocidade constante. Arriscamos a sorte numa espingarda de rolha e ganhamos dois drops. Minha filha está orgulhosa do pai herói. No jogo de argolas, acerto um pino incrivelmente difícil, mas a moça da barraca não admite a minha vitória e me nega o prêmio! Estamos perplexos e indignados. No aviãzinho, o operador de brinquedo com seu cigarro no canto da boca manuseia a trava de segurança com tamanha força que meu filho chora. Estava muito, muito quente. Era verão.


Chega a hora de ir embora. Penso agora no parque de diversões do Pinóquio. Doces em demasia e cores primárias.O hedonismo tem seu preço, parecem nos advertir os funcionários-vilões do parque. Até mesmo para as crianças, nem tudo é colorido. Fomos embora esperando que o parque itinerante, essa bolha na realidade, volte à nossa cidade.

***

É inverno, o parque voltou e já ensaiamos a nossa presença no fim de semana, esquecidos totalmente dos perigos do prazer. Por alguma razão, não fosse esse texto a me lembrar, estava guardada era a imagem do cachorro à sombra.



***

Dúvida do Quintarola: Por que é que a Roda Gigante do Parque Guanabara fica de costas pra Lagoa da Pampulha???
***
Essa, pra mim, é uma daquelas semanas em que os acontecimentos resolvem acontecer. Sim, porque há algumas em que eles teimam em desacontecer. Eu gosto dos acontecimentos, mas eles me tiraram esses dias um pouco o tempo do Quintarola. Sorte nossa, estar a Clau tão inspirada.
Cibele

Todo mundo tem alguma coisa…

pra fazer os outros rir ou debochar da gente. Até os modelos, até os intelectuais de vanguarda e os que se pensam incorruptíveis.

Felizmente ninguém foi fabricado em “perfeitas condições” (=os padrões de Estética do Século XXI). Felizmente existem narizes pontudos (que eu acho lindíssimos e expressivos!) ou “de batatinha”, peles nos mais diversos tons, olhos grandes ou apertadinhos; existe gente alta e baixinha, gordinha e magra, cabelos de toda cor e textura. Igualmente não se podem estabelecer padrões de Ética. Existem mil-e-uma nacionalidades, estilos, histórias, capacidades, dons, culturas, dificuldades, limites, preferências, enganos, princípios, vontades, esquisitices, manias, idades, valores…

Mas os meninos continuarão a identificar aqueles pontinhos que a gente, no fundo no fundo, mais detesta pra nos apontar o dedo e dizer, como na primeira frase do belíssimo livro de Luisa Aguilar e André Neves (Editora Callis,  São Paulo), “Orelhas de Borboleta”:

_ A Mara é orelhuda!

orelhas

Quem se importa? Todo mundo já se importou. Coisa ruim ser julgado. Mas passa. Passa quando percebemos nós mesmos que a opinião dos outros não é tão importante assim. Que só a gente mesma sabe quem é de verdade. Só que isso demora.

Fazem por maldade? Que nada. Fazem porque são meninos.

_Claudia Souza_

domingo, 14 de junho de 2009

Educação e Cultura

Não deveria existir nenhuma separação entre
educação e cultura. Não existe pessoa educada sem repertório cultural - e não existe repertório cultural sem educação.

(Gilberto Dimenstein, em artigo na Folha Online)

Aqui, uma resenha do livro “O Clube do Filme” de David Gilmour, que reforça a complementariedade atualmente mais fundamental que nunca entre Educação e Cultura através de uma experiência concreta de pai e filho. Estão também linkados os dois primeiros capítulos do livro.

Boa leitura!

PS.: Se o adolescente do livro está bem? Se conseguiu "sobreviver" à saída da escola?Responde também Dimenstein no mesmo artigo citado:

Perguntei a Gilmour, na semana passada, como estava seu filho: "Está feliz. Voltou a estudar e, além de chef de cozinha, escreve roteiros para cinema". E acrescenta: Pela repercussão do livro em várias países, Gilmour percebeu que a dificuldade de alunos brilhantes com suas escolas é um problema mundial.

_Claudia Souza_

Famílias diferentes, direitos iguais

coppia gay Gostei muito, tanto do post como da discussão nos comentários, de como foi tratado o tema aqui .

O Quintarola declara, obviamente, seu total repúdio à homofobia e apoia a idéia de criminalizar ações homofóbicas (outras providências e políticas públicas sendo igualmente importantes e complementares). Apoia também a adoção de crianças por casais homossexuais.

Quando vejo esse tipo de coisa precisando AINDA ser debatida me sinto na Idade das Cavernas. Me espanta como a Humanidade é ainda atrasada com relação aos Direitos Humanos…

Orientação sexual servir de impecilho a uma atitude como a adoção é o fim da picada. Os argumentos que determinada fração da sociedade coloca para justificar o impedimento legal não podem ser baseados num conhecimento profundo do desenvolvimento infantil, muito menos do sistema familiar, mas em elementos de ordem simplesmente moral (ou moralista).

Por sorte existem certas “pessoas-piloto”: aquelas que compram certas batalhas e enfrentam as primeiras munições pra provar pontos de vista pra lá de óbvios mas negados socialmente. Em Psicologia Social, são chamadas de “Forças Instituintes”, isto é, as forças sociais que se coordenam para instituir novos modelos e novas idéias num mundo rígido de “Forças Instituídas” muitas vezes baseadas em motivos irracionais. Espero que cada vez mais as Forças Instituintes consigam demonstrar que, pra exercer a maternidade/paterninade, são outras e muito outras as questões fundamentais.

Fico me perguntando se um dia as Leis vão sair da barbárie e realizar sua função: oferecer a TODAS AS PESSOAS, independente da infinita diversidade entre nós, direitos iguais.

_Claudia Souza_

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Cliente ou cidadão?

Li, entre perplexa e preocupada, esta entrevista com André Lapierre, educador francês, considerado o “pai” da Psicomotricidade Relacional. Coincidentemente, essa semana eu tinha acabado de reler o Programa Ministerial das Escolas Maternas francesas. O texto linkado é longo, mas vale a pena ler com a devida atenção e tirar suas próprias conclusões. Abaixo, teço algumas considerações muito pessoais, das quais vocês estão convidados inclusive a discordar.

Conheço a Psicomotricidade Relacional. Há quase 20 anos, quando ainda estudava psicologia na UFMG, vivenciei a técnica, estudei seus conceitos e cheguei a aplicá-la em meus estágios supervisionados. Ótimo recurso clínico, bons conceitos, bons fundamentos. Ótimas intenções. É mais que óbvio que, através de alguns materiais, brincando livremente com eles, as pessoas expressem seus sentimentos, suas motivações, até seus fantasmas. É igualmente óbvio que, no âmbito da comunicação humana, os objetos possam exercer uma função mediadora, principalmente quando se trata de uma comunicação complicada (como quase toda comunicação, eu diria). Ou seja, nada muito diferente de uma psicanálise, cujo fio condutor é a linguagem; na Psicomotricidade Relacional, este fio passa a ser as ações corporais. Se o recurso interpretativo do Psicanalista são as palavras organizadas em interpretação, o do Psicomotricista relacional são suas impressões organizadas em ações pontuais.

Vejam bem, não tenho nada contra a técnica (não creio seja um método, pois nada que envolve relações humanas pode ser enquadrado em método) em si. Mas me preocupo com seu uso nas escolas brasileiras como vem sendo feito nos últimos anos.

Na minha opinião, entre outras coisas:

1) Quando, onde e como submeter-se a uma técnica psicoterapêutica precisa derivar de uma escolha pessoal e subjetiva. No caso da criança pequena, que esta escolha seja pelo menos da família, não da escola. Ok, a família “sabe” que a escola adota esta técnica, mas a família é leiga, não tem conhecimento suficiente para definir conteúdos e práticas curriculares, a família age por confiança;

2) O profissional que coordena qualquer uma destas técnicas deve ser habilitado. Um educador não é um psicólogo, não pode exercer a função de interpretar. Mesmo se existam psicólogos presentes às “sessões”, a presença de outros adultos não habilitados influencia a condução do processo;

3) As crianças pequenas têm direito à privacidade de seus sentimentos e motivações como qualquer pessoa humana. É um uso indevido do poder institucional colocá-las em “sessão psicoterapêutica” sem o seu consentimento;

4) Os espaços simbólicos sociais devem ser bem delimitados. Escola não é clínica. São duas instituições com configurações e objetivos muito diversos. É claro que, por onde circulam pessoas humanas, existem problemas existenciais, mas o modo de lidar com estes problemas é muito diferente num âmbito e n’outro;

5) Uma classe escolar não pode ser definida como um grupo psicoterapêutico, já que nela confluem outras dinâmicas, principalmente políticas, que não são de ordem psicoterapêutica. Ou seja, o professor não pode ocupar posições diferentes em relação a seus alunos, sob o risco de perder-se o eixo das relações;

6) A elaboração das relações pessoais dentro da Escola não pode ser limitada a um enquadramento clínico. Ao contrário, permeia toda a vivência escolar.

Enfim, acredito que não por acaso o Ministério da Educação francês retirou esse tipo de prática de seu programa. E não é porque os franceses sejam resistentes, como hipotiza Lapierre na entrevista. A premissa mais importante do “Programa das Escolas Maternas e Elementares” de 2002, é justamente educar na cidadania, educar cidadãos.

“L’inégalité sociale, nous le savons, est d’abord une
inégalité culturelle : c’est à l’école qu’il appartient de
réduire cette distance par rapport au savoir et à la
culture” – (“
A desigualdade social, sabemos, é sobretudo uma desigualdade cultural: e cabe à Escola reduzir estas distâncias através do saber e da cultura”) diz o texto do Programa francês.

Educar cidadãos é muito diferente de atender clientes. Eis o maior problema da Educação brasileira atual. E o uso de técnicas psicoterapêuticas, pela e na Escola, é esta tendência levada ao pé da letra. Cheias de boas intenções, as Escolas brasileiras erram ao definir e conceitualizar seu público-alvo.

_Claudia Souza_

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Meninas pra sempre

Que saudade que me deu das Meninas de Sinhá… A prova por A+B de que Infância é muito mais que uma idade, ou um conceito vazio, ou uma invenção retórica. Infância é um estado de espírito.

_Claudia Souza_

Legal


Ilustração do artista austríaco Theodoru Badiu



Qualquer criança sabe o que é legal, mas os adultos não entendem de jeito nenhum. Lembro-me da minha frustração ao ler os comentários das crianças nas pesquisas de opinião sobre um espetáculo em que trabalhei. A escola e os adultos tentam qualificar : _Legal como?

Tenho observado que nas práticas espontâneas as crianças se satisfazem com o "legal", ou seja, aquilo no qual vale a pena investir seu tempo agora. Uma brincadeira, por exemplo, é legal e pronto! Um livro, um escultura, um espetáculo...

Pós-modernas, as crianças sabem que muitas vezes o discurso não dá conta do fenômeno e que vivê-lo é mais importante que entendê-lo.

Assim começa o prefácio de Pierre Gripari no livro Contos da Rua Brocá: Todo mundo sabe que as crianças entendem tudo. Se eu tivesse certeza de que este livro seria lido só por crianças, nem me passaria pela cabeça fazer este prefácio.

Legal!
_Cibele Carvalho_

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Medo do escuro, do silêncio e da solidão

É impressionante como as crianças enfrentam a hora de dormir com certa ansiedade. Os bebês _só descobri isso na marra_ quando acordam à noite, solicitam o mesmo cuidado que lhes foi dado na hora de dormir...Se dormiram no colo, pedem colo, se dormiram mamando, querem mamar de novo. De forma que o melhor a se fazer é nada fazer. Nada de estratégias mirabolantes como dar voltinhas de carro ou adormecer frente à tv.

Mesmo depois de aprenderem a dormir sozinhas, as crianças ainda enfrentam o escuro, o silêncio e a solidão. Uma vez, levei um livro chamado O Apanhador de Sonhos para a minha oficina de brincadeiras teatrais. O teatro e as brincadeiras de faz-de-conta, a gente sabe, acabam revelando mistérios muito profundos. Não era minha função analisá-los e nem tenho competência para isso... Mas esse dia me pareceu marcante, pelo seguinte: NENHUMA criança, coisa raríssima, quis ser o protagonista. Zacarias dormia e entrava numa atmosfera muito onírica e por isso mesmo, aos olhos dos pequenos, bastante assustadora. Acabaram me propondo ser o Zacarias e cada um deles escolheu ser unicórnio, dragão, bichos e tudo mais que habitava aquele sonho. Uma criança teve a idéia de me enterrar com almofadas, embora não houvesse nenhuma menção a nada parecido no livro, que aliás, é muito doce. Nada assustador.

Os adultos, às vezes ouvem, no silêncio da noite e da solidão, os barulhos que o dia, a produtividade ou a pressa não permitiram ouvir. Em geral, estão ali as fraquezas. E talvez a maior delas seja o medo de perder o controle e entrar num modo: estar-amorfo. Alguns adultos tem insônia, que eu imagino, é outro tipo de medo de dormir. Só depois de grande, aprendi a ouvir bem os barulhos (é preciso conhecer os inimigos), fazer um chá, pensar em antídotos e voltar a dormir. E já ensinei isso a algumas crianças. Uma delas veio me contar encantada, que depois de sonhar que um monstro queria roubá-la de sua mãe no shopping, fechou os olhos e conseguiu sonhar que o pai chegava e matava o tal monstro.
Sabidíssimo o artista plástico Leonilson na obra que ilustra esse post. Sim, sim, ando de namoro com a arte contemporânea. Um travesseiro bordado o nome do medo: ninguém. (click na foto para ver maior)
_Cibbele Carvalho_

A propósito dos livros pra crianças...

... encontrei essa pérola no site da Editora espanhola Media Vaca (aliás, da qual sou fã de carteirinha). Colo aqui pra vocês se deliciarem e "darem tratos à bola" também a respeito desse assunto. Cliquem na figurinha "Los libros para niños" debaixo da foto dos editores.

_Claudia Souza_
 
BlogBlogs.Com.Br