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domingo, 27 de dezembro de 2009

Caracolando 2 - Cenas de despedida


Imagem da artista plástica Russa Ilonessa


Último dia de aula, a Ciça vai se despedir da professora de artes de que gosta tanto.


_ Cecília, está caindo !_diz a professora apontanto para os pedacinhos de feltro que ficaram pelo chão, atrás de nós.


Passado o espanto e depois de catar tudo, a menina responde, rindo:


_ Acho que joguei para não perder o caminho de volta!




***


Ah, tem jeito de não chorar?


_Cibele_

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O jogo da Morra

Indo pro trabalho ontem, passei por uma pracinha. Estava caminhando distraidamente, quando um grito “Sete"!” chamou minha atenção. Vi um pouco adiante um grupo de senhores de certa idade, sentados na grama, com outras pessoas que observavam em volta. Devem estar jogando alguma coisa, pensei. E resolvi me aproximar.

Morra

Estavam mesmo. Me contaram que aquele era o jogo da Morra (se diz móra) e que é assim: os dois adversários estendem simultaneamente as mãos indicando um número com os dedos e contemporaneamente gritam um número de zero a dez. Vence quem diz a cifra que corresponde à soma dos dedos. Se ambos adivinham, ou erram, a jogada é anulada.

No trabalho me contaram que este jogo é antiquíssimo e muito difundido em toda a bacia do Mediterrâneo. Fui pesquisar mais ainda e descobri que é representado em um vaso funerarário conservado no Museu Egípcio de Berlim. Que na época romana era usado pra resolver disputas e assim foi por muito tempo.

Na ópera cômica Rita ou Le mari battu, de Gaetano Donizetti (1841), a Morra é jogada pra decidir quem ficará com Rita: Gasparo, o marido que se pensava morto mas retorna, ou Beppe, o novo marido. Só que, nas artes operescas, o jogo é feito às avessas, os dois querendo perder: Rita é “simpática como areia na cueca”, como costumam dizer aqui =) Acontece.

_Claudia_

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Arqueologia doméstica

(Esse post vai especialmente para o Maurício J., que sugeriu aqui uma Frente de Liberação para os brinquedos esquecidos).

Que tal aproveitar as férias (no Brasil, o recesso) pra fazer junto com as crianças um pouco de arqueologia doméstica? Remexer armários e cantos procurando aqueles objetos interessantes que, de tão bem guardados, quase viraram fósseis? Mas que podem ser ainda usados
a) em brincadeiras
b) em jogos de construção
c) como arquivo da história familiar... e por aí vai.

... Caso não possam mais ser usados em família, podem ser trocados, (um bazar de trocas desses objetos pode ser divertido), doados ou, se realmente inúteis (o que é raríssimo) simplesmente jogados fora, pra liberar espaço pras novidades. É claro, fazendo isso com muito critério. O lixo atualmente é um dos pontos mais cruciais pra quem acredita que a Terra terá um futuro. Portanto há-que considerar que os objetos, como os seres vivos, têm um nascimento, uma vida e uma morte, três etapas que podem - ou não - ser significativas dependendo de como nós as tratamos.

Costumava fazer isso todas férias quando Davi era pequeno. Uma vez a gente encontrou uma coleção de brinquedinhos de kinder ovo dele. Não deu outra: virou uma moldura de um quadro. Há pouco tempo a Paula me mostrou um trabalho que fez com a meninada da escola do filho dela assim, moldura de kinder ovo. Vejam que bela sacada:

No centro, obras das crianças...


_Claudia Souza_ (contando com a presteza da sócia na entrega dos Pra Casas enquanto viaja)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiirraaaaaaaaaaaaaaaaa


Aproveitando o "quentinho" da discussão aqui, resolvi fazer um post a respeito.

De tanto refletir sobre esse "fenômeno infantil mundial e irrestrito" = a birra, de tanto conversar com pais e mães e com as próprias crianças, acabei chegando a algumas conclusões.

Do meu ponto de vista, a birra acontece quando a criança, de um certo modo, perde o eixo. Perde as estribeiras, como diziam os antigos. E aí o corpo faz uma descarga difusa de tantos sentimentos misturados e incompreensíveis pra ela. Motivo tem de sobra pra isso, como foi inclusive citado nos comentários.

Muitas, muitas vezes mesmo, a birra vem "agudizada" pelo cansaço. Dos pais, da própria criança. Mas uma condição é quase sempre presente: a birra pra acontecer precisa de público. Raramente acontece em privado, já perceberam? Isso me faz pensar que tem a ver com algum mecanismo político. Uma vontade, ou várias vontades acumuladas, que não é/não são satisfeita(s). A gente percebe pouco o quanto não vê/não escuta as crianças (e isso já falei no post abaixo). Porque o ritmo que impomos na vida é quase sempre o nosso, de adulto. E elas nesse meio? Enfim, teria de avaliar, com uma calma que o momento da birra não permite, se essa vontade exteriorizada na birra é justa ou não (as outras vontades complementares já tendo sido dissolvidas). Praticamente impossível, eu diria. Naquele momento, pelo menos. Depois dá pra conversar e pensar.

Não é uma fórmula (porque se eu soubesse fórmulas de educação estaria escrevendo um manual pros milhões de mães e pais desesperados, eu incluída). Mas uma atitude que, na minha experiência pessoal, foi interessante e eficaz é, no momento da birra, "catar" a criança, acolhê-la com firmeza e ternura, oferecendo a ela um eixo corporal externo seguro. Sabem o tipo "abraço de urso"? Coisa bem entre vocês dois? Dar a ela o eixo que perdeu, sair do público, entrar no privado. Falar baixinho, no seu ouvido... Depois de um tempinho assim, enlaçados, ela costuma ir se acalmando, vai reencontrando seus sentimentos e pode ser até capaz, entre um soluço e outro, de nos contar alguma coisa importante.

Eu sempre preferi fazer alguma coisa, mesmo correndo o risco de errar. Quem não erra, não educa, como dizia Paulo Freire.

Se as crianças modernas andam (pelo menos aparentemente) mais birrentas, é um ponto controverso. Na minha experiência de educadora observo um crescimento desse comportamento, em termos de frequência e de queixa das famílias. E atribuo ao comportamento dos pais modernos que me parecem muito desconcertados, seja diante da explosão da birra ou em outras situações de autoridade. Talvez um pouco mais de tentativa, de ação educativa, ajudasse...

_Claudia Souza_

 
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