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sábado, 25 de junho de 2011

Resposta mais rápida que um gatilho: Infância e infâncias

girotondo

Uma coisa que aprendi com os anos, Ci. O melhor modo de enfrentar questões complexas como esta que você me coloca é não complicar muito e divagar.

Divagando – isto é, sendo duas vezes vaga hehe – eu já começo duvidando da colocação arièsiana de que a infância é um conceito tardio na história da humanidade. Sei não, tenho lido outras vertentes e estou quase convencida de que esse conceito existe desde o início, só que não interessava, por motivos diversos, reconhecê-lo e dar-lhe o valor devido, já que isso significaria tratar as crianças em modo mais decente (como nunca foram tratadas, idade contemporânea incluída). Mas bem, só isso já daria um artigo e não cabe num post então deixo só a poeira levantada e parto já pra coisa da universalidade da infância.

Também divagando tendo a considerar em relação dialética e muito retro-alimentadora os efeitos de cultura e biologia na constituição da(s) infância(s). As duas colaborando mutuamente, nem mais nem menos pra cada lado. Daí que, no que tem de biologia sobressaem as semelhanças (a universalidade) entre as diversas infâncias, no que tem de cultural sobressaem as diferenças.

“Na nossa espécie” – diz Barbara Rogoff - “cada geração vem ao mundo predisposta a adotar os usos e costumes dos nossos antepassados, graças à condivisão de uma série de atividades promovidas culturalmente”.

Eu acho as crianças italianas muito diferentes das brasileiras. Uma coisa que chama muito a atenção é como as crianças brasileiras se comunicam principalmente com o corpo e só depois estabelecem um contato verbal. Com as crianças italianas ocorre justamente o contrário: são capazes de uma retórica impressionante desde o primeiro contato, mas só depois de muita convivência começam a se expressar corporalmente. São mais contidas, mais obedientes, mais preocupadas com a opinião do adulto sobre suas produções. Até sua brincadeira é mais contida, mais limitada. É muito mais fácil trabalhar com as crianças italianas que com as brasileiras, por um lado, mas muito mais difícil por outro, porque eu fico sempre querendo provocá-las pra ver se conseguem “sair da toca” e compreender que podem participar do processo de construção de regras, por exemplo. (Aliás, isso é outra coisa que chama a atenção aqui, o modo impessoal com que as regras são colocadas).

Você vê como cada frase desse post daria outros e mais outros…

_ Claudia _

Paesaggio bimbo1

PS.: Sobre o sol, a resposta é SIM, as crianças daqui também desenham e muito o solzinho estereotipado no canto da página ou no alto. A representação desses ícones (sol, árvore, montanhas, casa) não varia muito não, e parecem não estar em relação com o que vêem no ambiente, mas com símbolos mais profundos.

Deixo um link de um site de desenhos de crianças italianas retratando paisagens.

http://www.arteinfantile.it/paesaggi.htm

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

História da Infância

A mais famosa é a do Philippe Ariès (1960), que todos vocês já devem ter lido, segundo a qual a consciência de infância era ausente na sociedade medieval; tão logo conseguisse viver sem a assistência direta da mãe ou substituta, a criança entrava diretamente na sociedade adulta. Esta tese é fundamentada principalmente na análise da Arte medieval, em que as crianças são representadas como adultos em miniatura.

Alguns autores alargaram esses estudos: deMause (1974), Shorter (1977), Stone (1977).

bambini 1900

Outros criticaram a visão de Ariès: Garnsey (1991), Hanawalt (1993), Shahar (1990) e principalmente Linda Pollock (1983), em seu interessante livro Forgotten Children. Nele a autora questiona a modalidade indireta com que os dados foram recolhidos nos estudos de Ariès e seus seguidores e defende que os mesmos devam ser recolhidos sobretudo em fontes mais diretas, como diários, autobiografias, artigos de jornal e atos de tribunais relativos a processos envolvendo crianças e adolescentes. Através destes documentos, a autora alega ter encontrado uma visão da História da Infância muito diferente daquela de Ariès. Segundo Pollock, a idéia de infância não só existia desde épocas muito longíquas como foi sempre um pré-requisito para a sobrevivência das sociedades humanas.

Barbara Hanawalt traçou um quadro da vida de crianças e jovens na Londres dos séculos XIV e XV, Lester Alston dedicou-se ao estudo das crianças escravas nos Estados Unidos e Elliot West estudou as crianças imigradas naquele país entre 1880 e 1900; outros estudos que merecem ser lidos.

E quem sabe desdobrados em novas pesquisas…

_Claudia_

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O discurso e os discursos

Eu queria destacar só esse trechinho do discurso que motivou o meu último post:

A igualdade de oportunidades para homens e mulheres é um princípio essencial da democracia. Gostaria muito que os pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas, e lhes dissessem: SIM, a mulher pode!
Colo abaixo o discurso na íntegra, pra não ter que linkar o uol/FSP e suas sutilezas rancorosas:
Minhas amigas e meus amigos de todo o Brasil,

É imensa a minha alegria de estar aqui.

Recebi hoje de milhões de brasileiras e brasileiros a missão mais importante de minha vida.

Este fato, para além de minha pessoa, é uma demonstração do avanço democrático do nosso país: pela primeira vez uma mulher presidirá o Brasil. Já registro portanto aqui meu primeiro compromisso após a eleição: honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural. E que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade.

A igualdade de oportunidades para homens e mulheres é um principio essencial da democracia. Gostaria muito que os pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas, e lhes dissessem: SIM, a mulher pode!

Minha alegria é ainda maior pelo fato de que a presença de uma mulher na presidência da República se dá pelo caminho sagrado do voto, da decisão democrática do eleitor, do exercício mais elevado da cidadania. Por isso, registro aqui outro compromisso com meu país:

Valorizar a democracia em toda sua dimensão, desde o direito de opinião e expressão até os direitos essenciais da alimentação, do emprego e da renda, da moradia digna e da paz social.

Zelarei pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa.

Zelarei pela mais ampla liberdade religiosa e de culto.

Zelarei pela observação criteriosa e permanente dos direitos humanos tão claramente consagrados em nossa constituição.

Zelarei, enfim, pela nossa Constituição, dever maior da presidência da República.

Nesta longa jornada que me trouxe aqui pude falar e visitar todas as nossas regiões.

O que mais me deu esperanças foi a capacidade imensa do nosso povo, de agarrar uma oportunidade, por mais singela que seja, e com ela construir um mundo melhor para sua família.

É simplesmente incrível a capacidade de criar e empreender do nosso povo. Por isso, reforço aqui meu compromisso fundamental: a erradicação da miséria e a criação de oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras.

Ressalto, entretanto, que esta ambiciosa meta não será realizada pela vontade do governo. Ela é um chamado à nação, aos empresários, às igrejas, às entidades civis, às universidades, à imprensa, aos governadores, aos prefeitos e a todas as pessoas de bem.

Não podemos descansar enquanto houver brasileiros com fome, enquanto houver famílias morando nas ruas, enquanto crianças pobres estiverem abandonadas à própria sorte.

A erradicação da miséria nos próximos anos é, assim, uma meta que assumo, mas para a qual peço humildemente o apoio de todos que possam ajudar o país no trabalho de superar esse abismo que ainda nos separa de ser uma nação desenvolvida.

O Brasil é uma terra generosa e sempre devolverá em dobro cada semente que for plantada com mão amorosa e olhar para o futuro.

Minha convicção de assumir a meta de erradicar a miséria vem, não de uma certeza teórica, mas da experiência viva do nosso governo, no qual uma imensa mobilidade social se realizou, tornando hoje possível um sonho que sempre pareceu impossível.

Reconheço que teremos um duro trabalho para qualificar o nosso desenvolvimento econômico. Essa nova era de prosperidade criada pela genialidade do presidente Lula e pela força do povo e de nossos empreendedores encontra seu momento de maior potencial numa época em que a economia das grandes nações se encontra abalada.

No curto prazo, não contaremos com a pujança das economias desenvolvidas para impulsionar nosso crescimento. Por isso, se tornam ainda mais importantes nossas próprias políticas, nosso próprio mercado, nossa própria poupança e nossas próprias decisões econômicas.

Longe de dizer, com isso, que pretendamos fechar o país ao mundo. Muito ao contrário, continuaremos propugnando pela ampla abertura das relações comerciais e pelo fim do protecionismo dos países ricos, que impede as nações pobres de realizar plenamente suas vocações.

Mas é preciso reconhecer que teremos grandes responsabilidades num mundo que enfrenta ainda os efeitos de uma crise financeira de grandes proporções e que se socorre de mecanismos nem sempre adequados, nem sempre equilibrados, para a retomada do crescimento.

É preciso, no plano multilateral, estabelecer regras mais claras e mais cuidadosas para a retomada dos mercados de financiamento, limitando a alavancagem e a especulação desmedida, que aumentam a volatilidade dos capitais e das moedas. Atuaremos firmemente nos fóruns internacionais com este objetivo.

Cuidaremos de nossa economia com toda responsabilidade. O povo brasileiro não aceita mais a inflação como solução irresponsável para eventuais desequilíbrios. O povo brasileiro não aceita que governos gastem acima do que seja sustentável.

Por isso, faremos todos os esforços pela melhoria da qualidade do gasto público, pela simplificação e atenuação da tributação e pela qualificação dos serviços públicos.

Mas recusamos as visões de ajustes que recaem sobre os programas sociais, os serviços essenciais à população e os necessários investimentos.

Sim, buscaremos o desenvolvimento de longo prazo, a taxas elevadas, social e ambientalmente sustentáveis. Para isso zelaremos pela poupança pública.

Zelaremos pela meritocracia no funcionalismo e pela excelência do serviço público.

Zelarei pelo aperfeiçoamento de todos os mecanismos que liberem a capacidade empreendedora de nosso empresariado e de nosso povo.

Valorizarei o Micro Empreendedor Individual, para formalizar milhões de negócios individuais ou familiares, ampliarei os limites do Supersimples e construirei modernos mecanismos de aperfeiçoamento econômico, como fez nosso governo na construção civil, no setor elétrico, na lei de recuperação de empresas, entre outros.

As agências reguladoras terão todo respaldo para atuar com determinação e autonomia, voltadas para a promoção da inovação, da saudável concorrência e da efetividade dos setores regulados.

Apresentaremos sempre com clareza nossos planos de ação governamental. Levaremos ao debate público as grandes questões nacionais. Trataremos sempre com transparência nossas metas, nossos resultados, nossas dificuldades.

Mas acima de tudo quero reafirmar nosso compromisso com a estabilidade da economia e das regras econômicas, dos contratos firmados e das conquistas estabelecidas.

Trataremos os recursos provenientes de nossas riquezas sempre com pensamento de longo prazo. Por isso trabalharei no Congresso pela aprovação do Fundo Social do Pré-Sal. Por meio dele queremos realizar muitos de nossos objetivos sociais.

Recusaremos o gasto efêmero que deixa para as futuras gerações apenas as dívidas e a desesperança.

O Fundo Social é mecanismo de poupança de longo prazo, para apoiar as atuais e futuras gerações. Ele é o mais importante fruto do novo modelo que propusemos para a exploração do pré-sal, que reserva à Nação e ao povo a parcela mais importante dessas riquezas.

Definitivamente, não alienaremos nossas riquezas para deixar ao povo só migalhas.

Me comprometi nesta campanha com a qualificação da Educação e dos Serviços de Saúde.
Me comprometi também com a melhoria da segurança pública.

Com o combate às drogas que infelicitam nossas famílias.

Reafirmo aqui estes compromissos. Nomearei ministros e equipes de primeira qualidade para realizar esses objetivos.

Mas acompanharei pessoalmente estas áreas capitais para o desenvolvimento de nosso povo.

A visão moderna do desenvolvimento econômico é aquela que valoriza o trabalhador e sua família, o cidadão e sua comunidade, oferecendo acesso a educação e saúde de qualidade.

É aquela que convive com o meio ambiente sem agredi-lo e sem criar passivos maiores que as conquistas do próprio desenvolvimento.

Não pretendo me estender aqui, neste primeiro pronunciamento ao país, mas quero registrar que todos os compromissos que assumi, perseguirei de forma dedicada e carinhosa.

Disse na campanha que os mais necessitados, as crianças, os jovens, as pessoas com deficiência, o trabalhador desempregado, o idoso teriam toda minha atenção. Reafirmo aqui este compromisso.

Fui eleita com uma coligação de dez partidos e com apoio de lideranças de vários outros partidos. Vou com eles construir um governo onde a capacidade profissional, a liderança e a disposição de servir ao país será o critério fundamental.

Vou valorizar os quadros profissionais da administração pública, independente de filiação partidária.

Dirijo-me também aos partidos de oposição e aos setores da sociedade que não estiveram conosco nesta caminhada. Estendo minha mão a eles. De minha parte não haverá discriminação, privilégios ou compadrio.

A partir de minha posse serei presidenta de todos os brasileiros e brasileiras, respeitando as diferenças de opinião, de crença e de orientação política.

Nosso país precisa ainda melhorar a conduta e a qualidade da política. Quero empenhar-me, junto com todos os partidos, numa reforma política que eleve os valores republicanos, avançando em nossa jovem democracia.

Ao mesmo tempo, afirmo com clareza que valorizarei a transparência na administração pública. Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. Serei rígida na defesa do interesse público em todos os níveis de meu governo. Os órgãos de controle e de fiscalização trabalharão com meu respaldo, sem jamais perseguir adversários ou proteger amigos.

Deixei para o final os meus agradecimentos, pois quero destacá-los. Primeiro, ao povo que me dedicou seu apoio. Serei eternamente grata pela oportunidade única de servir ao meu país no seu mais alto posto. Prometo devolver em dobro todo o carinho recebido, em todos os lugares que passei.

Mas agradeço respeitosamente também aqueles que votaram no primeiro e no segundo turno em outros candidatos ou candidatas. Eles também fizeram valer a festa da democracia.

Agradeço as lideranças partidárias que me apoiaram e comandaram esta jornada, meus assessores, minhas equipes de trabalho e todos os que dedicaram meses inteiros a esse árduo trabalho.

Agradeço a imprensa brasileira e estrangeira que aqui atua e cada um de seus profissionais pela cobertura do processo eleitoral.

Não nego a vocês que, por vezes, algumas das coisas difundidas me deixaram triste. Mas quem, como eu, lutou pela democracia e pelo direito de livre opinião arriscando a vida; quem, como eu e tantos outros que não estão mais entre nós, dedicamos toda nossa juventude ao direito de expressão, nós somos naturalmente amantes da liberdade. Por isso, não carregarei nenhum ressentimento.

Disse e repito que prefiro o barulho da imprensa livre ao silencio das ditaduras. As criticas do jornalismo livre ajudam ao pais e são essenciais aos governos democráticos, apontando erros e trazendo o necessário contraditório.

Agradeço muito especialmente ao presidente Lula. Ter a honra de seu apoio, ter o privilégio de sua convivência, ter aprendido com sua imensa sabedoria, são coisas que se guarda para a vida toda. Conviver durante todos estes anos com ele me deu a exata dimensão do governante justo e do líder apaixonado por seu pais e por sua gente. A alegria que sinto pela minha vitória se mistura com a emoção da sua despedida.

Sei que um líder como Lula nunca estará longe de seu povo e de cada um de nós.

Baterei muito a sua porta e, tenho certeza, que a encontrarei sempre aberta.

Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza e generosidade. A tarefa de sucedê-lo é difícil e desafiadora. Mas saberei honrar seu legado.

Saberei consolidar e avançar sua obra.

Aprendi com ele que quando se governa pensando no interesse público e nos mais necessitados uma imensa força brota do nosso povo.

Uma força que leva o país para frente e ajuda a vencer os maiores desafios.

Passada a eleição agora é hora de trabalho. Passado o debate de projetos agora é hora de união.

União pela educação, união pelo desenvolvimento, união pelo país. Junto comigo foram eleitos novos governadores, deputados, senadores. Ao parabenizá-los, convido a todos, independente de cor partidária, para uma ação determinada pelo futuro de nosso país.

Sempre com a convicção de que a Nação Brasileira será exatamente do tamanho daquilo que, juntos, fizermos por ela.

Muito obrigada,
***
_Cibele_

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Política, Infância e Gênero



Quando o Obama tomou pose como primeiro presidente negro dos EUA, bem no dia do aniversário da minha filha, escrevi um post pensando no que aquele dia representaria para o futuro das crianças.

Hoje não poderia ser diferente. Confesso arrependida, cometi o equívoco de colocar a minha filha na cama, antes que ela visse a primeira presidenta eleita desse país se pronunciando, um aceno promissor para o lugar da mulher (e das crianças do sexo feminino) nesse país. Mas o farei hoje. Por aqui.

Pensando em como a infância se relaciona com a política, para além da imprescindível reflexão sobre o projeto político para a infância e a educação de cada candidato, recorri à minha própria memória.

A ditadura, só vi nos livros didáticos; o Diretas-já, uma memória muito difusa. O que marcou a minha infância foi a inflação, as compras colossais no início do mês antes que o dinheiro minguasse nas mãos da minha mãe e os cálculos contorcionistas do meu pai para o ajuste da minha escassa mesada. Os candidatos pareciam sempre os mesmos e a desesperança era grande. Lembro ainda a emoção trepidando a voz da minha professora de português na quinta série, quando ela relatava a queda do muro de Berlim e com isso marcava as nossas memórias e tecia a trama dos nossos valores.
Na adolescência, contrariando meu pai, adotei um broche do PT na minha mochila, apelidada carinhosamente, Neide Candolina, famosa por essa homenagem. Nunca entendi direito porque sendo meu pai tão forte na minha formação, tomei caminhos tão diferentes nas minhas convicções políticas. Possivelmente, rascunho hoje, porque já naquela época comecei a desconfiar que a meritocracia tão defendida por ele, não lhe devolvia o que lhe era de direito, dado que sempre trabalhou muito, com uma inteligência rara e uma honestidade incansável. Havia alguma outra força atuando naquela realidade, que não a dedicação e a competência.
Por ver o que era uma quimera de adolescência ganhando contornos nítidos de realidade, ontem fui dormir mais tranquila. Talvez o mundo esteja mesmo mais justo e seguro para minha filha...

... E aproveito para pensar sobre a importância dos líderes na política, nas instituições e porque não, nas escolas.


Bom dia companheiras,

_Cibele_



quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A infância...de idílica a onírico-pesadelídica



É cada vez mais comum na produção cultural o casamento entre o terror e a ingenuidade. Dos contos de fadas de Tim Burton, passando pelas obras da artista plástica argentina Flávia de Rin, o fato é que o lado mais sombrio da infância resolveu mostrar suas garras. Até mesmo o Spike Jones já afirmou sobre o recém lançado "Onde Vivem os Monstros" que se trata de um filme sobre a infância, mas não para crianças. Sem falar no esperado Alice no País das Maravilhas do mesmo Burton.


O Estranho Mundo de Jack (1993), A Noiva-Cadáver (2005) e a Casa Monstro (2006), Os Fantasmas de Scrooge (2009) passeiam desavisadamente nas prateleiras de filmes infantis das locadoras. Digo desavisadamente não porque ache que o limite entre o infantil e o não-infantil seja muito definido, mas porque são filmes que podem assustar verdadeiramente algumas crianças. "Definitivamente não é um filme infantil" é o que mais se ouve por aí. Não iria tão longe. Melhor seria assistir ao lado, preferencialmente já tendo assistido antes. Às vésperas da minha mudança, resolvi vetar o Coraline por aqui, mas pretendo liberá-lo tão logo tudo volte ao normal.

As relações da infância com o terror rendem muito assunto e dizem da necessidade social de preservação dessa idéia, dessa construção histórico-social que é a infância. É só pensar nas adaptações dos contos dos irmãos Grimm e em como as histórias folclóricas de medo foram sumindo da nossa cultura.

No terreno da mais pura opinião, ainda temo que esse confinamento cultural custe caro e gosto de observar como cada criança lida com seus próprios monstros.

E vocês, mostraram ou mostrariam esses filmes aos seus filhos e alunos?

***
Nesse blog, uma monografia de duas alunas de comunicação social da PUC Minas sobre Tim Burton.

***

Cibele

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Rapidinha

Eu, se fosse você, não perderia o post do Garrocho com o vídeo do Abecedário de Gilles Deleuze de jeito nenhum. O post linka outro post, do blog Estrangeiro, em que os leitores do Quintarola podem começar pelo E de enfance, mas os outros verbetes são também imperdíveis!

_Cibele_

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Sementes suecas


Está em cartaz no Museu Casa Mineira em São Paulo, a exposição Sementes Suecas, que traz produtos infantis de 30 empresas suecas com design que valorizam a segurança, a saúde e o lúdico.

Não pude deixar de notar a recorrente a tensão entre a necessidade de se preservar a infância, aqui expressadas pelas idéias de segurança e de valorização do brincar e o perigo do confinamento cultural da criança, conceito de Edmir Perroti.

Obviamente, não se trata de desprezar a importância das cadeirinhas de segurança para carro ou dos filtros solares, mas não deixa de ser interessante pensar que uma outra boa medida para a segurança das crianças é submetê-las a algum risco calculado. Não é por acaso que as crianças que mais caem são as mais protegidas. Digamos assim, que tão importante quanto eliminar o risco desnecessário ou excessivamente danoso é prepará-las para os riscos inevitáveis. E isso só pode ser feito através dos pequenos riscos.
_Cibele_

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A infância de Gaudí

No Museu sobre Antoni Gaudí que tem dentro da Sagrada Família, também em Barcelona, encontrei um textinho simples mas muito significativo sobre a infância dele. O Marco fotografou pra gente:

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Traduzindo: Antoni Gaudí i Cornet nasceu no ano de 1852, na zona rural do Campo Baixo (Tarragona). Pequeno, tinha uma saúde muito fraca e seus contínuos ataques de reumatismo o separaram das brincadeiras de crianças e atrasaram seu ingresso na escola elementar. Sua mãe passava muitas horas com ele e o distraía com passeios pelo campo, observando a natureza.

Recordando sua infância, Gaudí, já adulto, escreveu: “com os maços de flores, rodeado de vinhedos e oliveiras, animado pelo cacarejo das aves, o piar dos pássaros e o zumbido dos insetos, e com as montanhas de Prado ao fundo, captei as mais puras e prazerosas imagens da Natureza, essa Natureza que sempre é minha Mestra”.

Esta citação nos revela que os primeiros anos de vida de Gaudí foram chaves em seu caminho até uma arquitetura inacreditavelmente singular, naturalista e orgânica.

Vendo o trabalho dele, dá pra perceber como a Natureza é realmente sua maior inspiração. E é de arrepiar. No Museu tem essas instalações explicando a referência que ele usava da geometria natural em seus projetos arquitetônicos.

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E no fim, dá nisso (deixo de fora o Parque Guell de propósito, porque um dia quero fazer um post só sobre ele):

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Fotos minhas e de Marco

Sempre achei que os primeiros anos de vida determinam todo o resto. E que uma educação vivenciada e mediada pelo afeto vale muito mais que qualquer erudição.

_Claudia_ Esta série de posts de viagem termina aqui. Agora a bola tá com a Cibbele.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Uma infância possível

Afinal, a Infância não precisa de muitos predicados. A gente só não pode esquecer o que é possível, senão ela corre o risco de desaparecer, de ser riscada precocemente do mapa da nossa vida. Eu penso sempre que ser criança "hoje" não tá nada fácil, em função das configurações da modernidade, mas se for pensar bem, nunca foi. Em todas as épocas a Infância precisou de adultos conscientes que a defendessem. Sejamos nós os de agora.

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Algumas coisas possíveis para a Infância atual:

  • Levar uma vida mais simples, sem tantas "necessidades" criadas/impostas de fora;
  • Viver num ambiente tranquilo;
  • Alimentar-se com consciência, mas sem obsessões;
  • Estar com outras crianças (até de idades diferentes) o maior período de tempo possível;
  • Brincar MUITO;
  • Usar roupas confortáveis (um pouco de pé-no-chão...);
  • Sujar-se;
  • Ser dona do próprio tempo;
  • Ser escutada e respeitada em suas pequenas e grandes decisões e opiniões;
  • Ser compreendida em relação a seus sentimentos (como diz o Ives Della Talle, "sentir é sempre lícito, o que pode não ser lícito são as açoes em função dos sentimentos");
  • Aconchegar-se quando quiser;
  • Ter ao lado adultos fortes e responsáveis o suficiente pra ser autoridade, proteção e referência;
  • Ter direito à privacidade;
  • Sonhar. Sonhar muito! Porque esse é o principal conteúdo da Infância de sempre.

_Claudia Souza_

quarta-feira, 11 de março de 2009

Nem pobre, nem antiga, nem idílica

Para Ju Sampaio que levantou essa bola lá nos comentários e sugeriu que virasse post

Muito do estudo sobre a infância se dá pelo viés da negação. Sabemos o que não deve ser feito mais do que o que deve ser feito. Sem dúvidas há uma crise de paradigmas. Críticos de nossa própria cultura (do consumismo, do tempo acelerado, do virtual), corremos o risco de falar sobre uma infância-negativa, aquela que não existe. Ou porque já passou (infância nostálgica), ou porque nunca existiu (infância idílica) ou por ser a negação total da infância que vemos da nossa janela.

A infância nostálgica
Caímos nela quando usamos como prumo a nossa própria infância. É lugar comum no sermão do adulto dizer: “Na minha época, isso não era permitido!” ou “aquilo é que era infância (ou brinquedo)”, como se essa diferença fosse em si, razão suficiente pra dizer que uma é melhor que a outra. Os brinquedos antigos, a escola de outrora, os velhos valores, seriam mesmo melhores? A própria idéia do resgate da cultura da infância pode levar-nos ao erro de desmerecer a cultura infantil contemporânea, imaginando que seja cultura apenas o que já está esquecido. É o conservadorismo de roupa nova.

A infância idílica
É aquela infância dos tons pastéis ou das cores fortes e muitos diminutivos. A infância da delicadeza, da imaginação pura e da alegria como estados permanentes do infantil. Uma infância sem os medos, as angústias, os sentimentos de culpa e de injustiça. Uma infância quase parnasiana.

A infância pobre
Boa pescaria da Clau, quando lembrou da fala de Paulo Freire: “a falta educa mais que o excesso”. Essa frase faz muito sentido pra quem vive imerso e atuante na sociedade de consumo. Sentir a falta quando tudo já se tornou descartável, é belo aprendizado. Contudo, a mesma frase perde totalmente o sentido se dita de dentro da pobreza. A crítica ao consumismo não é um voto de pobreza, mas a resignificação do objeto (objeto vivo, diria a sócia). O ode à escassez de recursos ou a estética da pobreza parecem acalmar a culpa, quase que invertendo o jogo: felizes são eles que não sofrem com todos os nossos excessos...

Para entender de onde surgiu essa conversa, o caminho é esse.
Para estender a conversa por novos caminhos, grite ô de casa aí embaixo.
Cibbele Carvalho

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A Propósito da Universalidade da Infância...

Tenho duas experiências pra contar:


  • Logo que cheguei aqui em Milão, participei de um ensaio fotográfico chamado "A Memória dos Jogos Tradicionais". Duas fotógrafas, uma venezuelana e a outra italiana, queriam imagens de brincadeiras do mundo todo. As brincantes éramos eu (representando América), uma chinesa (Ásia), uma romena (Europa) e uma camaronense (África). Ajudadas pela língua (embora incipiente) em comum, a gente conversava muito durante as sessões de fotos, realizadas em várias escolas da cidade. E acabamos concluindo que a base das brincadeiras era a mesma: mudava o nome, claro, e algumas regras acessórias. As crianças italianas não tinham dificuldade nenhuma em entrar no ritmo das propostas, mesmo se a mediação não fosse necessariamente a língua (todas nós brincantes éramos recém-chegadas e, como não dominavamos bem o italiano, usávamos outros recursos de comunicação), mesmo porque não tinha muita novidade pra elas. Rapidamente identificavam a brincadeira dentro de seu repertório pessoal e cultural.

  • Em setembro de 2008, em Verona, aconteceu o Tocatì, Festival Internacional de Brincadeiras de Rua, promovido pela Prefeitura da cidade em parceria com a Associação de Brincadeiras Antigas. Cada ano, a organização do Festival convida um país diferente como destaque. Desta vez tinha sido a Escócia. Pude acompanhar mesas redondas, palestras, conferências, comprar livros e catálogos sobre brincadeiras, e o mais incrível foi vê-las brincadas na rua, por adultos e crianças indistintamente. A cidade foi toda transformada num grande quintal, com pistas de bolinha de gude, tatames, chão de pião, balanços, etc. De todas as brincadeiras que vi, duas merecem destaque: uma é o arremesso de queijo, brincadeira tradicional italiana.Um queijo imenso é enrolado numa corda e depois lançado. Pra vocês nao dizerem que estou mentindo, tenho a foto abaixo pra comprovar. Outra é uma brincadeira de homens escoceses. Parece um Rugby: do alto alguém atira uma bolinha, do tamanho de uma bolinha de tênis, e os jogadores, divididos em duas equipes, se jogam uns sobre os outros na tentativa de pegá-la e levá-la à base do adversário pra fazer uma espécie de gol. Era divertidíssimo assistir, porque os jogadores podem blefar, podem esconder a bolinha dentro da roupa, podem usar as estratégias mais impensáveis. Ou seja, apesar da semelhança, nada muito esportivo, tudo muito lúdico. O impressionante é que, mesmo na confusão generalizada de gente amontoada, ninguém se machuca. Existe um respeito completo pela incolumidade física. Tinha inclusive gente de óculos!!
Na maioria, eram brincadeiras já minhas conhecidas, com poucas modificações. Até a velha e boa "finca" - jogo com barrinhas pontudas da minha infância perdida no interior de Minas - eu pude reencontrar.
É fato: as crianças têm uma Cultura que avança sobre as fronteiras virtualmente construídas pra separar os Homens e pra sustentar seus poderes (igualmente virtuais). Que avança inclusive sobre o Tempo. Não existe mesmo idade pra Infância.

"Os homens não param de brincar porque envelhecem; eles envelhecem porque param de brincar" - Ditado mexicano.

_ Claudia Souza_

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Agora, sim : Os da minha rua


Sem dúvida alguma, Os da Minha Rua , do escritor angolano Ondjaki, é um dos melhores livros de literatura que li nos últimos tempos...

Começo pelo início do fim. Ondjaki afirmando: “A infância é um ponto cardeal eternamente possível”. Fica noutro lugar, mas pode ser revisitado. Lendo, vou me lembrando de algumas imagens e restaurando sensações.

Uma imagem: (o cachorro) mexia-se sempre devagarinho, bocejava, e era capaz de ir procurar um bocadinho de sol para lhe acudir as feridas. (...) O Kazukuta naquele olhar dele de remelas e moscas, às vezes, ele podia estar a pensar. Outra: Tirei os quedes vermelhos, tinha os dedos grandes, os mindinhos e os calcanhares muito irritados. E cheirava muito a chulé, eram, pra dizer a verdade, um quedes que não davam jeito nenhum, mas eu gostava deles. Não sei bem porquê.

Mesmo na infância angolana, podemos ver a infância de todos nós. As infâncias são muitas_ agolanas, brasileiras, palestinas, americanas, israelitas, japonesas, medievais ou pós-modernas. Mas as infâncias são uma só, por exemplo, na sua estrangeiridade (tomei a expressão emprestada de Walter Koan) em relação ao adulto. Quem não se lembra da angústia de ser pequeno no mundo dos grandes? De não entender todos os códigos (Não sei, eu era só uma criança dessas a olhar os mais velhos)? E de se saber sempre andarilho rumo a um o ponto cardeal ainda não visitado?

Uma sensação:
_Meninos, a tia Maria morreu.
Até tive medo, não daquela notícia assim muito séria, mas do que alguém perguntou:
_Mas podemos continuar a brincar só mais um pouquinho?

Outra:
Nós, as crianças, vivíamos num tempo fora do tempo, sem nunca sabermos dos calendários de verdade.

E Outra: é um pouquinho assustador, mas mesmo quando somos crianças, o antigamente já fica lá longe.

E outra mais: Eu brincava um pouco se houvesse jardim ou mesmo rua. Depois sentava-me no colo da tia Rosa e começava a “encher o saco”, como dizia Tio Chico. Começávamos a perguntar se já íamos embora, dizia que tinha sono e fome, só me respondiam que estava quase a chegar a hora de irmos. E vinham mais cervejas. Muitas mais.

Na rua, as crianças constroem comunas lúdicas, regidas por éticas e etiquetas próprias.
_Amanhã num queres me convidar para almoçar na tua casa?

Na rua, os adultos é que experimentam o não-pertencimento. Quando um adulto resolve interferir ou julgar uma brincadeira sem ser solicitado, em geral, mete os pés pelas mãos.

No fim do fim do livro, Ana Paula Tavares, em carta, afirma ao autor que teu livro dá conta de como crescem em segredo as crianças. Ou em um dialeto próprio.

Tudo isso pra ficar na cultura da criança, porque se fosse pra falar da linguagem poética, da delícia que é ler o Português de outros países, teríamos mais alguns posts.
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Aprendi as expressões angolanas matabichar (fazer pequena refeição, o desjejum) e pedir abuçoitos (pedir licença de uma brincadeira, similar ao nosso “altas”). Guardo aqui como numa coleção de achados.

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Quintarola Quizz
Quem conhece a brincadeira angolana “35 vitórias”? Fiquei curiosíssima para saber como é...Valendo um doce!
_Cibbele Carvalho_
 
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