
Foi a Clau quem apelidou carinhosamente a abordagem sociológica da infância de “infância de quintal”. Venho revirando esse termo tão sugestivo e pensando no que é uma infância vista pelo viés do espaço e mais, de um espaço quase extinto, já que as casas e seus quintais estão cada vez mais raros nas grandes cidades.
Aparentemente, faria muito mais sentido pensar hoje na infância de pracinha, assim como antigamente, na infância de rua. E porque insistimos na idéia da infância de quintal, correndo o risco de tomar cores muito idílicas? A infância de rua, sim, é lugar irrecuperável, já que seu território foi tomado pela noção do público totalmente descolado do privado. A rua não é de ninguém e por isso, não é lá muito confiável.
A infância de pracinha, por sua vez, é a solução dada para a “atopia” da infância. A pracinha oferece o sol matinal e alguns companheiros. Se o quintal é o espaço arruado da casa, a pracinha deveria ser o espaço caseiro da rua, mas não é assim que acontece.... Na pracinha, vejo crianças passeando (ou melhor, sendo passeadas) em carrinhos, babás uniformizadas e vigilantes para evitar qualquer arranhão de joelho, além de pouquíssimos atrativos e desafios. A pracinha não traz as marcas das crianças, não é construída por elas e por isso não é lugar (olha que conceito oportuno!).
Há no quintal, também em contraponto, o irresistível ser pra dentro. Ele é arruado, mas é da casa. A infância de quintal, de certa forma, prestigia o momento de estar sozinho como imprescindível para estar com o outro. E aqui me lembro da atriz Maria Luiza Mendonça, em entrevista à Marília Gabriela, dizendo que incentivava sua filha não a ser artista, mas a cultivar um ser artístico, a ter uma riqueza interior tal, que lhe permita estar bem consigo mesma.
Tudo isso não nos impede de aproveitar os momentos praças da vida, tal como esse, descrito sensivelmente por Fabrício Carpinejar ,ou de recordar as aventuras da rua como no livro Os da Minha Rua do escritor angolano Ondjaki. Mas para este livro, belo presente (autografado!) da minha amiga Ju Steck, dedicarei um post à parte.
Estou de volta e empolgada com as encomendas de temas para posts sugeridos pelos nossos queridos leitores. Quem quiser participar pode, a qualquer momento, botar o pé no quintal e gritar: “ô de casa!” Assim como fez a Elisa ali embaixo.
É bom voltar pra casa!
_Cibbele Carvalho_