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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Falando de Cultura Popular 2

Desculpe, Ci, mas vou desandar hahaha Esse tema me encanta!

Aqui um vídeo da minha ídola Angela Lago, falando de dislexia, de poesia… e de Cultura Popular!


Falando de Cultura Popular

Andei fuçando nuns ditados e expressões populares por aqui e descobri um monte de “coincidências” com os brasileiros. A  ideia é parecida, embora as palavras usadas sejam geralmente diferentes (acontece também de serem exatamente as mesmas). É a Sabedoria Popular como ponte entre culturas diversas.

saggezza

“Uomo avvisato è mezzo salvato” – (literalmente: homem avisado é meio salvado) corresponde ao nosso “Quem avisa amigo é”;

“Chi non muore si rivede” (quem não morre se revê) corresponde ao nosso “Quem é vivo sempre aparece”. 

“Una rondine non fa primavera” (uma andorinha não faz primavera) corresponde ao nosso “Uma andorinha só não faz Verão”. Aqui as andorinhas migram na primavera, aí no Verão =)

“Da un melo non può nascere un pero” (de uma macieira não pode nascer uma pereira) corresponde ao nosso “Filho de peixe peixinho é”.

“Prendere due piccioni con una fava” (pegar dois pombos com uma fava) corresponde ao nosso “Matar dois coelhos com uma cajadada só”. Eles são menos drásticos hehe

“Troppi galli a cantar e non fa mai giorno” (galos demais cantando e o dia não nasce) corresponde ao nosso “muito cacique pra pouco índio”.

“La notte porta consiglio” (a noite traz conselho) corresponde ao nosso “nada como um dia após o outro”.

E por aí vai. Se vocês quiserem depois posto outros =)

_Claudia_

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A voz do povo é a voz de Deus

A palavra POVO é usada com frequência em sentido pejorativo, principalmente por uma suposta (auto-declarada)  elite intelectual/artística. Povo não sabe votar. Povo é massa de manobra. O que agrada ao Povo não pode ser coisa boa.  Povo não sabe pensar por si mesmo. Uma obra popular não pode ser considerada Arte, é folclore. E por aí vai. Conclusão: é mais chique ser o “artista incompreendido”. Afinal, “a verdadeira Arte/Cultura é para uns poucos (ricos) eruditos que sabem apreciá-la, não pra uma manada de ignorantes que querem apenas consumi-la – e cosumá-la”. Nosso herói, o “artista incompreendido” , não vende muito, não é muito reconhecido, tem poucos seguidores (num vocabulário mais atual), não é (e nem quer ser, deusmilvre!) popular, pois “seu valor é intrínseco à maravilhosa Arte que produz”. É o marginal orgulhoso, consciente da “grandeza singular de sua obra” (…)

                    image

Eu sou uma apaixonada pelo POVO e pela CULTURA POPULAR. Acho a Cultura popular a coisa mais próxima da Cultura Lúdica que existe no mundo adulto. Acho também que a Cultura Popular é tão parecida no mundo inteiro que serve de ponte para toda e qualquer integração. POVO é comum. É coletivo. Nada mais HUMANO que POVO (com suas qualidades e defeitos).

Adoro os ditados, canções e contos populares, a sabedoria popular, os costumes, as festas, as tradições, a culinária, o senso comum, o jeitinho peculiar das diversas comunidades. Até a magia popular me agrada, eu que sou completamente convicta da Racionalidade.

Sempre adorei trabalhar em grupo, no coletivo. Falar no plural, pertencer a um time, a uma associação, ter empatia, ser semelhante. Mesmo sabendo o risco grande que essa atitude comporta: os “ismos” (sobre os quais já escrevi aqui), as deformações, as lavagens cerebrais de estar “dentro de”. Mas pra esses riscos tem remédio, e é o pensamento crítico que a gente adquire com o tempo, principalmente nas idas e vindas. Movimentar-se é um excelente antídoto pras ideias preconcebidas e territoriais.

Fato está que, com todos esses riscos, prefiro confrontar-me com a sociedade, prefiro falar “de dentro” do povo. Colaborar, compartilhar são ações que prezo muitíssimo. Eu quero ser popular. Como escritora, tenho a ambição não só de ser criticada como de ser ajudada pelos colegas e pelo editor, além de desejar ser lida por todas as crianças do mundo. Quero ser best-seller benhe! =)  Como educadora pretendo saber me comunicar (em linguagem ampla e acessível) com todas as famílias que existem. Como cidadã quero continuar a exigir pacificamente meus direitos e assumir minhas responsabilidades.

Gosto, tenho prazer em me sentir parte de um POVO. Com todas as suas (humanas) contradições.

Eu acho que o povo sabe – e muito bem – apreciar as boas obras. E que decide consumir outras não tão boas mas que de algum modo lhe trazem satisfação, mesmo que momentânea. O povo decididamente não “compra” (não “engole”)  ideias/obras medíocres. Existe uma sabedoria imperceptível nas escolhas populares que faz com que permaneçam apenas elementos que merecem permanecer.

(Ando inclusive pesquisando alguns fenômenos de popularidade entre as crianças, quero entender por que, além é claro, da propaganda, do lado estritamente comercial, algumas coisas “pegam” entre elas e outras não. Principalmente quero entender por que algumas coisas permanecem. Em breve vou compartilhar com vocês os resultados dessa minha pesquisa).

_ Claudia Souza (quer sobrenome mais popular que esse? hehehe)

Duas ressalvas: Querer ser popular não significa querer ser unânime, bem como ser convicta da Racionalidade não significa querer ter razão.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

A prima rica (e bem comportada!) da Dona Baratinha

Esse fim de semana fui contar histórias da tradição popular brasileira numa biblioteca aqui da província de Milão.

Eles estão hospedando uma parte de uma mostra anual de ilustrações, muito importante por sinal, a mostra de Sàrmede, cuja sessão principal está no Castello Arengario de Monza. Este ano, o país escolhido é o Brasil. Diversos ilustradores do mundo todo ilustraram contos brasileiros (todos indígenas, diga-se de passagem, porque cultura brasileira pra infância aqui na Europa é sinônimo de cultura indígena. Mas isso é uma longa história).

Mas enfim… acabei conhecendo, através da bibliotecária, a versão européia da História da Dona Baratinha. Em espanhol se chama “La ratita presumida” (A Ratinha prepotente), em italiano “La topolina civettuola”.

topolina

A base é praticamente a mesma: a Ratinha encontra uma moeda e vai pra janela procurar um marido. Passam os animais (boi, asno, cabrito) e ela, depois de lhes propor casamento, vai pedindo pra escutar seu ruído (o texto estimula o leitor a reproduzir cada “voz”). Todos a assustam até que aparece o Ratinho, ela o escolhe, se casam e são felizes para sempre.

Na apresentação da Editora Kalandraka vem escrito que “trata-se de uma grande novidade no gênero álbum ilustrado, pois o texto lembra uma representação teatral e propõe muitas ações a quem a conta”. Coisa rara por aqui.

As diferenças entre as versões brasileira e européia começam pelo casal de protagonistas: na versão européia um Ratinho só pode se casar... com uma Ratinha! Baratinha com Ratinho é absurdo. O lógico ululante, sem nenhuma surpresa ou subversão. Outra coisa é a própria estrutura do conto. Muito linear, enxuta demais, sem nenhuma emoção. O final é previsível e enjoado: os dois se casam e ponto. Outra coisa que notei foi que na versão européia vem inserida só uma musiquinha mínima, e ainda daquelas de tra-la-lá, bobinha-bobinha. Além dela, indicações de tocar um sininho. Nada a ver com as canções complexas do nosso Braguinha.

Dona Baratinha

O final da Dona Baratinha original é bem dramático: João Ratão cai na panela de feijão e morre. Braguinha tentou contemporizar(ele não morre, mas fica feio e estrupiado, e assim a Baratinha desiste de se casar com ele). Uma educadora no público me disse uma coisa sensata: seria menos “violento” se ele tivesse morrido! Ser rejeitado por ter ficado feio é muito mais dramático!

Mas com certeza contar ou ouvir a Dona Baratinha é muito mais interessante que essa história de ratos bem-comportados (mesmo se, como sempre, seja ilustrada com todo primor). Essas e outras me fazem perceber como a alma do povo brasileiro me agrada. A gente pega os conteúdos dos colonizadores e dá uma veste toda subversiva. E decididamente mais criativa!

_Claudia_

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Leitura imperdível

"Quem tem medo do Bicho-Papão" é um texto muito, muito bonito do Luiz Tarlei de Aragão, antropólogo da UNB.

"É bem verdade que chega a ser um "luxo", a paternidade em sociedades modernas, onde, como super-heróis mal enjambrados assumimos com exclusividade essa condição de genitores, locus privilegiado de uma lei super-potente."

"...perdemos a capacidade de sermos pais dos filhos dos outros e com isso criamos de vinte anos pra cá um exército de órfãos, que por mais irônico que possa parecer, é filho de uma dupla "carnificina" simbólica."

São alguns trechos sobre o lugar incômodo que a criança tem ocupado na sociedade. Cheio de memórias, belezuras e sensatez, o texto trata dessa orfandade explícita e do papel social do medo:

"De toda essa panóplia aterrorizante, certamente os mais eficazes e generalizados, que eu chamaria de "universais paralizantes" de nossos meninos e meninas, era o trio: Bicho-papão, Lobo-mau e Capeta, por razões que até os psicanalistas, muito mais que os antropólogos e outros "ólogos", poderiam considerar a título de compreensão, ou lazer. Acho que esses bichos e a própria propedêutica ligada a eles está desaparecendo,despencando ladeira abaixo; na curva que o mundo está dando certamente saltarão fora dos trilhos de nossa civilização, para dar lugar a outros, de outros nomes, certamente menos poéticos."
E o que é melhor, disponível aqui.
_Cibele_

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Cinco marias, pedrinha, bole-bole, saquinhos…

É tudo a mesma coisa. Um jogo delicioso que eu me lembro como se fosse hoje de brincar por horas e horas com os amigos ou sozinha.

Eu jogava muito com seixos arredondados ou com sementes de pêssego. Depois, já em Belo Horizonte e já adulta, conheci a versão dos saquinhos de arroz, muito legal porque é mais fácil de pegar, sem falar na etapa de construção do brinquedo (cortar, preencher e costurar o saquinho, com direito a enfeites exclusivos), muito divertida também.

5 marias

Aqui uma reportagem da Folhinha sobre o jogo entre as crianças da Amazônia, que usam sementes. Tem um video muito legal das crianças brincando, da série Mapa do Brincar.

_Claudia_ (a gente já deve ter falado disso aqui, mas é sempre bom reforçar).

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Sexta-feira sem link ou subvertendo os costumes

obra do austríaco Waldmüller retirada do sensacional blog de imagens Imagens e Letras.
Esse post da Clau me lembrou o Thompson, Edward Palmer Thompson, um dos historiadores mais importantes de todos os tempos que, apesar disso, e vai ver até por isso mesmo, é um não-acadêmico. Pois então, o Thompson faz uma distinção super oportuna entre costume e tradição. O costume, ele diz em Costumes em Comum - Estudos sobre a Cultura Popular Tradicional, “longe de exibir a permanência sugerida pela palavra tradição, era (ele tá falando do século XVIII) um campo para a mudança e a disputa, uma arena na qual interesses opostos apresentavam “reinvindicações conflitantes.” Por essa razão ele sugere que se tenha cuidado com o termo “cultura popular” que pode sugerir uma “perspectiva ultraconsensual”, como um conjunto de significados partilhados.
Já há bastante tempo o termo “folclore” foi substituído por “cultura popular” para realçar a dimensão analítica que superava a ideia do colecionador de aspectos culturais desvinculados de seu contexto. Eu ainda utilizo folcore em contexto muito específicos, mas Thompson sugere um passo a mais...repensar a cultura sob a luz dos costumes. Ele segue contando do paradoxo que é a dimensão rebelde da cultura tradicional, que resiste em nome do costume e contra as inovações da economia (ele continua falando do século XXVIII, mas me parece muito oportuno).

O brincar e a cultura popular, então, se rebelam contra as datas comerciais e, por outro lado, dentro dessa tradição, coabitam inúmeras vozes e costumes não necessariamente consensuais. Mesmo uma só pessoa não é uníssona, mas ambígua, o que nos permite por exemplo, de vez em quando, ter uma experiência repleta de sentidos mesmo num mundo de plástico. O que me permitiu por exemplo, encarar a fila para comprar presentes para os meus filhos. Já reinvindicava uma amiga sumida, hilária e sabida, a Surya, que lhe exigir coerência aí também era demais!
Fiquei boba quando vi que aqui no Quintarola a gente já tinha tags pra costumes e cultura popular!!!
E me lembrei do Benjamim...mas ele tava no post Um Minuto de Silêncio, então, cumprindo a promessa, deixo pra semana que vem.
_Cibele_ que acha dificílimo fazer voto de silêncio...aliás, qualquer voto

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Olha que legal!



A Andréa Amendoeira nos escreveu contando que dia 17 de outubro estará em BH com a Banda Esquindô. Às 11 hs no Parque Muncipal, tá?

Um abraço, Andréa,

_Cibele_

domingo, 29 de agosto de 2010

Linha de papagaio

A Editora Peirópolis está desenvolvendo uma linha chamada “Cultura da Infância” que está bem legal. Nem precisa falar muito se quem abre a lista é nada menos que o nosso querido “Barangandão Arco-íris”, do Adelsin.

E tem mais livros dele por lá!

Confiram aqui.

_Claudia_

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Notícias

Clau ligou agora a pouco se despedindo...a abusada volta amanhã pra Itália. E ainda me disse que, depois da maratona da bienal, vai tirar férias em alguma praia por lá. Francamente!
***
Dica do Idelber: livro de ficção infanto-juvenil sobre um elemento forte da cultura popular divinopolitana. O Reinado de Bené, tem orelha da escritora Ana Maria Gonçalves. E o melhor, disponível aqui.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Divagações sobre o Palhaço

O Palhaço é um personagem muito afim ao mundo infantil. Toda criança adora. Aliás, nem toda, porque ele estranhamente costuma ser escolhido (até com muita frequencia!) como objeto de medo e tensão dos pequenos, no meio de aranhas, crocodilos, ladrões, cães, lobos, fantasmas e outros seres “assustadores”. Por que será? Eu perguntava isso pro meu sobrinho quando era bem pequenininho e tremia ao ver um palhaço, mas ele nunca soube me explicar. Fica uma grande interrogação (que nem pretendo querer responder pra não cair em nenhum psicologismo).

De todo jeito, o Palhaço é o querido da meninada. Deve ser porque (e isso me arrisco a teorizar) como costuma dizer o Rodrigo Robleño, “o palhaço é um ser levado, nas duas acepções da palavra, isto é, de ser levado pela vida e de ser uma pessoa levada, danada, bagunceira”.

Pra ser Palhaço o processo é mais duro que se imagina. Porque o sujeito precisa, em primeiríssimo lugar, e isso aprendi também com o Rodrigo, aprender a lidar com o seu próprio ridículo. Porque é do próprio ridículo, projetado no ridículo do palhaço, que as pessoas riem. E que as crianças compartilham. O que pros adultos é um desafio, pras crianças é só um jogo. O Palhaço precisa conhecer bem as regras do jogo e saber até onde ir, o que é permitido ou não, senão não “funciona”, não diverte. viralata igarapé 1

Não basta (o exagero pode até atrapalhar) vestir-se de Palhaço, botar peruca, um narigão vermelho (aliás, esse ítem deriva do nariz vermelho dos primeiros palhaços, que não eram lá muito sóbrios) e fazer palhaçada. Não basta ter boas intenções. Cada um de nós tem um Palhaço dentro que precisa ser encontrado se se quer ser Palhaço de profissão. Poucos conseguem.

_Claudia_

domingo, 21 de março de 2010

Contos populares 5: Contos de Origem e Contos de Peleja

Só pra fechar essa série:

Os contos de origem são os mais antigos de todos e já aparecem em culturas muito primitivas, explicando como surgiram seres, objetos, eventos ou características. “A Festa no Céu”, que a Cibele citou aqui, é um deles. “As cores das aves” é outro, maravilhoso, bem típico da tradição oral (esse eu escrevi há pouco tempo, a Paula Juchem ilustrou de um jeito bem particular, e agora está no prelo de uma novíssima editora paulista -vou já atiçando a curiosidade de vocês hehe).

O grande manancial de lendas do folclore cristão (contos de milagres, de obras, de natureza etc) traz esses componentes, bem como a maioria das lendas indígenas brasileiras. A lenda da noite, a da mandioca, a lenda das montanhas-irmãs são alguns exemplos… As lendas gregas e africanas também fazem muita referência à origem. Os contos de origem têm um certo aporte místico, e são associados a divindades e/ou entidades, ao “começo do mundo”, a um tempo fictício, embora não sejam contos religiosos.

Já os contos de peleja narram epopéias, batalhas, lutas, armações, dificuldades quase insuperáveis de algum personagem (que acaba se transformando em herói) pra vencer as forças da natureza, vilões, o destino ou o que quer que seja, em nome de um ideal. A literatura de cordel, típica do nordeste brasileiro, usa e abusa desses componentes associando-os a uma linguagem em versos incomparável.

cordel

Enfim, essa classificação é meio didática e na realidade todas as modalidades se entrelaçam no emaranhado de narrativas universais e milenares, transmitidas de pai pra filho através dos tempos, dentro da cultura popular. Não é à-toa que esses contos sobreviveram, mesmo através de períodos em que não se contava nem menos com a palavra escrita. Eles têm um sentido fortíssimo dentro dos arquétipos da Humanidade.

_Claudia_

quinta-feira, 11 de março de 2010

Contos populares 4: Contos de esperteza

Falando de politicamente correto hehe Taí os mais politicamente incorretos do planeta. Mas sabem que eu a-do-ro? Quando eu era pequena minha mãe dizia que eu gostava do “mal-feito” =)

O português Pedro Malasartes era meu ídolo na infância. A historinha dele com a sopa de pedras minha mãe me contava sempre, na mais pura tradição oral, e é excepcional. Mas tem muitas outras, o homem é terrível!

Malasartes

Depois tem o velho e bom Macaco Simão, aquele mesmo da história da Velha, em outros contos mirabolantes em que sempre vence pela esperteza, pra não dizer malandragem mesmo (inclusive num trecho d’O Macaco e a Velha inserido na versão recontada pelo Braguinha, como expliquei pra Cibele posts atrás). Tem também os irmãos-caçula dos contos de fadas. Os animaizinhos “indefesos” de várias fábulas. Nos desenhos animados então, tem milhões: o Pica-pau, o Jerry, o Piu-piu, o Papa-léguas, o Pernalonga… todos inspirados nesses contos antiiiiigos da cultura popular.

O bacaninha é quando o humilde, o mais fraco, a criança, vence o mais forte através de artimanhas. E vence porque se defende, porque o mais forte quer dominar. Tá certo, é um pouco aquela coisa dos fins justificarem os meios, mas as tramas são tão bem articuladas que, como conto, são divertidíssimas. E fazem pensar. Inclusive sobre nosso moralismo.

_Claudia_

quinta-feira, 4 de março de 2010

Contos populares brasileiros 3: Contos de Riso

Taí uma modalidade que a meninada adora! E a adultada também. =)

São histórias boas de contar, de ler, de escutar, de escrever. Através de recursos simples, mas complexos, trazem à tona uma das coisas mais difíceis de se lidar: o ridículo que traz dentro de si todo e qualquer ser humano, seja ele “bobo, bocó, burraldo e paspalhão”, como no maravilhoso livro do mestre Ricardo Azevedo, ou o supra-sumo da inteligência.

As anedotas não envelhecem nunca nesses contos. Podem ser repetidas à exaustão que a gente morre de rir, só pelo modo em que são narrados. Tem de ter muita capacidade pra amarrar as palavras umas nas outras de modo a provocar o riso solto. Coisa pra poucos contadores, e menos ainda escritores (imaginem a dificuldade de não ter outros recursos senão a palavra).

4018 - 1961 - O Macaco e a Velha 01

Lembram do “Macaco e a Velha”? Gosto muito dessa versão recontada pelo Braguinha (que é a que a gente escuta cantada na Coleção Disquinho e vê nos velhos slides, que agora descobri, foram parar no iutubi!), mas tem muitas outras divertidíssimas, de rolar de rir. A minha versão preferida é a do Ricardo Azevedo mesmo, confesso. Com especial destaque pro final. Antes tinha o livrinho só dela, acho que saiu de catálogo, mas vocês podem ainda lê-la na coletânea Histórias que o povo conta. São Paulo: Editora Ática, 2002. p. 26-30. Aliás, é ótimo apresentar às crianças várias versões do mesmo conto(mesmo que às vezes elas reclamem: Não é assim!). Com o cuidado de evitar as tais adaptações ou “versões renovadas”, o que significa “politicamente corretas”(isso vale não só pros contos de riso).

Como toda categoria de conto popular, os contos de riso têm a sua gramática. São cheios de idas e voltas, jogos de palavras (com a licença poética pras chamadas palavras chulas, mas delicadas, sem exageros), situações fantásticas e burlescas, onde a sorte é quase sempre determinante a favor do mais fraco… enfim, acho que vale mais a pena vocês mesmos descobrirem o quê mais, lendo e relendo o que tem por aí.

_Claudia_

segunda-feira, 1 de março de 2010

A Lenda do Romãozinho


Lembrei de outra pra contar...a lenda do Romãozinho, um menino danado demais! Nasceu danado e assim ficou até o seu fim, do qual a gente só sabe ouvindo a estória que se segue com ouvido bem abertos.


Pois a mãe do Romãozinho pediu ao malcriado que levasse o almoço a seu pai que estava trabalhando numa roça logo adiante. Romãozinho praguejou e de raiva resolveu comer todo o frango do pai.


O pai, quando viu os ossinhos no fundo do prato, foi logo perguntando quem fez aquilo e Romãozinho, só na ruindade, vingou-se da mãe dizendo que tinha sido ela e um homem que sempre a visitava quando o pai estava ausente.


O pai volta pra casa na mesma hora e encontrando a esposa a fiar no alpendre, mata-lhe pelas costas, chamando-a infiel. Antes de morrer, a mãe pragueja contra Romãozinho, dizendo que não haveria lugar pra alma tão ruim nem mesmo no inferno.


E é por isso que Romãozinho vive até hoje aqui e aí ao seu lado, amedrontando qualquer um na ruindade que lhe é própria, fazendo artes de norte a sul. Pra ele, nem o céu, nem o inferno!


Ai que medo!


_Cibele_


* Dizem que esse conto deu origem à lenda do saci.
** Conheço na versão de Câmara Cascudo que reconto aqui de memória, mas que vale a pena procurar pra ler de cabo a rabo.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Contos Brasileiros - Uma festa no céu


Talvez fosse preciso aprofundar um pouco mais nesses conceitos literários...os contos, as lendas, as fábulas e os mitos e isso é impossível para alguém que, como eu, está com o escritório encaixotado. Mas o post da Clau me fez lembrar na mesma hora do conto etiológico (que explica a origem de um nome, característica animal ou lugar) que carrega muito da cultura brasileira.


Festa no céu é uma história de uma festa reservada aos que voam e da solução que o sapo, bicho com jogo de cintura suficiente para circular na terra e em meio aquático, arranja para aparecer por lá. Mais brasileiro impossível. O sapo não podia ser outro que não o Cururu, aquele da beira do rio, que canta quando tem frio.


Festa no céu pode ser facilmente relembrada na coleção Disquinho, na coleção Clássicos Infantis da Editora Moderna (que ilustra este post) e na memória dos mais velhos que generosamente ainda se dispõem a contar histórias assim de pronto.
Quem lembra de mais uma?
_Cibele_ tentando fazer 2010 começar pra valer




quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Lendas e mais lendas

images Como todo povo, o Brasil produziu muita coisa tentando dar sentido a uma vida sem sentido (tem até aquela frase linda da Alda Merini que diz que “a vida não tem sentido mas é a vida que nos dá um sentido”). E é isso a cultura popular, esse emaranhado de personagens, objetos, invenções, palavras, canções, histórias e principalmente lendas, que se juntam pra dar sentido.

As lendas de um povo revelam muito da alma desse povo. As lendas da Cultura Popular Brasileira são um retratinho 3X4 da alma de cada pessoa que nasceu, vive ou viveu no Brasil – por dentro. Porque tocam nos nossos medos, nos nossos sentimentos mais ancestrais, nas nossas espectativas, no nosso jeito de ser mais genuíno.

Às vezes, escuto falar delas de um modo depreciativo ou meio desvalorizado, como se o que vem do povo fosse um conhecimento menor. A própria palavra “folclore” é geralmente usada em modo meio depreciativo, nunca fui muito com a carinha dela, embora o significato real seja bem bonito e próximo do que a gente entende por Cultura Popular. E essa coisa de limitar o folclore a uma data comemorativa (em agosto, acho) me incomoda ainda mais. A Cultura Popular não pode fazer parte da nossa vida o ano inteiro?

Eu defendo a idéia de que as crianças brasileiras precisam crescer cercadas pelas nossas lendas. Que sejam as lendas indígenas (lindas-de-morrer), as lendas do campo, as lendas urbanas. Que sejam originais ou revisitadas. Meninos que conhecem e fazem uso das lendas de seu povo sabem entender mais quem são de verdade.

(Tudo bem que conhecer também as lendas gregas, as latino-americanas, africanas, européias, asiáticas, as novas-lendas-americanas (veiculadas pelo cinema e pelos quadrinhos), só pra dar exemplo porque lenda tem no mundo inteiro, não seja nada mal. Mas as nossas é que são a nossa cara, as nossas é que têm de ser a referência dos pequenos).

_Claudia_

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Bonecões e mamulengos

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Li que o (belíssimo) Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, vai promover um desfile de bonecões em volta da Estação da Luz e da Pinacoteca do Estado, ao ritmo de marchinhas de carnaval. Já não era sem tempo.

Já era hora das instituições culturais brasileiras apoiarem as manifestações mais jenuínas da nossa cultura, no meio da avalanche de “produtos de exportação” que enchem os olhos do brasileiro e principalmente do resto do mundo nesse período. Deslocar um pouco o foco não é nada mal. Principalmente pras crianças. Vou ficar esperando pra ver se as TVs italianas noticiam (também) esse evento =)

Enquanto isso, na terra do “Homem da Meia-Noite”, Olinda, o Museu do Mamulengo se prepara pra série de espetáculos carnavalescos com seus imperdíveis e célebres personagens: Tiridá, Mateus e Catirina, o boi de janeiro… Queria estar lá pra ver.

Fica aí uma idéia pras escolas: bonecões, mamulengos, burrinhas da Bahia, cirandas, marchinhas, samba de roda, frevo, maracatu… é tanta coisa pra festejar o carnaval que a mulata globeleza vai ficar chupando dedo.

_Claudia_

domingo, 1 de novembro de 2009

O moussakàs e a inter-culturalidade

Partindo das conversas sobre o Dia do Saci, me veio de matutar mais um pouco.

Se a gente defende a cultura popular brasileira – por exemplo, propondo alternativas locais à colonização – pode parecer nacionalismo barato (e azedo) ou resistência ao convívio com outras culturas mundiais. Mas não é bem assim. Trata-se de um exercício de resistência sim, mas não de negação das culturas diversas, ou da porosidade entre culturas. Resistência ao domínio, à invasão cultural banalizada, à perda da identidade nativa em nome de costumes importados.

bambini

Hoje li na revista Internazionale uma metáfora muito interessante sobre a integração entre etnias, que posso usar pra explicar como penso esse conceito.

O artigo, da jornalista grega Helene Paraskeva, recorre à metáfora do “moussakàs, prato completo de sabor único” , comparando-o “a uma sociedade em evolução, que passa de um modelo multicultural a outro inter-cultural”. moussaka Este prato de forno é feito com camadas de comidas muito diferentes, cozinhadas de modo muito diverso. É um prato multicultural porque seus ingredientes vêm de diversas partes do mundo. Mas é também inter-cultural já que seus ingredientes (que não são espremidos, comprimidos ou prensados, mas mantém sua identidade original) recebem todos o sabor do azeite, o qual põe em relação os diversos sabores e cria a harmonia pro paladar.

Pra mim é mais ou menos assim que deve funcionar a inter-culturalidade. Cada povo mantém sua identidade cultural, trabalha pra preservá-la, pra transmiti-la às novas gerações, embora reconheça o “fio de azeite” que une todas as culturas e que torna tudo mais harmonioso, mais bonito, que faz a convivência pacífica, “porosa”, entre os povos. É belo e curioso conhecer e saber reconhecer AS outras culturAS, e até trocar influências, desde que se conheça bem, se valorize e se faça respeitar A sua própria culturA. Aí estará sempre a sua referência, o seu ponto de convergência, no mundo-vasto-mundo. Porque cultura é sempre construção de sentidos.

Pra saber olhar pra fora, começa-se por olhar pra dentro.

_Claudia_

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Internet, infância, horror, cantigas de ninar e dominação cultural

Joshua Hoffine

Não deve haver uma só pessoa que não tenha recebido o clássico e-mail da(o) brasileira(o) que trabalhou no exterior cuidando de crianças, e percebeu, através dos olhos da americana dona da casa, o horror nas cantigas de ninar brasileiras. Mais um texto sem autor. Um mito que circula na internet, como tantos outros, muitas vezes atribuídos a autores consagrados.

Aqueles que veem nas letras a força da lei e nelas creem incondicionalmente, acabam mantendo uma relação de dominação com a internet e consequentemente, pelas infinitas asneiras que circulam nela. As novas gerações precisarão aprender a selecionar, num mundaréu de quinquilharias, aquilo que lhes serve.

Nesse caso específico, do e-mail sobre as cantigas brasileiras, uma pesquisa rápida pelo google nos faz ver que o texto circula tanto com o narrador feminino, quanto com o masculino. Uma das marcas registradas do disse-me-disse internético.

O assunto do texto me lembrou de um livro muito bonito, de nome O Acalanto e o Horror. Nele, a autora Ana Lúcia Cavani Jorge atribui ao bicho papão e a outros seres amedrontadores, o papel do Outro, da Lei, da Cultura, daquele que faz a interdição na relação mãe e filho. O bicho-papão antecipa a separação realizada no pai, no irmão, no trabalho da mãe, na noite, no sono. Nas cantigas de ninar, as ameaças são belamente ditas assim:

boi, boi, boi, boi da cara preta...

ou

papai foi pra roça, mamãe foi trabalhar...

ou

tutu marambá, não venha mais cá

Eu não conheço as cantigas de ninar estadunidenses, tampouco a cultura popular do país, mas dado que se trata do berço do politicamente correto, não deixa de ser interessante notar a coincidência geográfica entre o moralismo puritano e um país extremamente bélico. Entre a docilidade brasileira (pra lembrar de Giberto Freyre) e o Tutu marambá.

Por mim, continuaremos atirando o pau no gato.

Sobre o mesmo e-mail, também falou Hélio Consolaro.

Sobre terror e infância, é desconcertante o trabalho de Joshua Hoffine.

Sobre os crimes cometidos por crianças em escolas americanas, o livro Precisamos Falar sobre Kevin.

Sobre o sono infantil, arrisquei algumas linhas aqui.


_Cibele_

 
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