quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Downi Creations dolly

Fiquei sabendo num blog italiano da existência de uma nova linha de bonecas que representam pessoas com capaBoneca cegacidade física e mental diversa: a boneca down com olhos amendolados, a boneca de turbante como se fizesse quimioterapia, a boneca com óculos escuros, bengala e cão-guia (foto), a boneca em cadeira de rodas.

Fui direcionada pelo mesmo blog a este link da Times Magazine e soube, entre outras coisas, que a discussão tem sido muito ampla a respeito, inclusive com a participação de pais de crianças “especiais”.

Os fabricantes apostam na intenção de favorecerDisabilityDoll a identificação dessas crianças com o brinquedo, colaborando com sua auto-estima.

Alguns pais se ofendem com o modo em que seus filhos vêm representados. Outros apoiam a iniciativa como possibilidade de ampliar a visão das crianças “normais” a respeito de suas coetâneas “diferentes”, o que serviria como prevenção de comportamentos agressivos e discriminatórios em relação a elas.


Fiquei pensando um monte de coisas. Antes de tudo fiquei curiosa em saber como reagem as próprias crianças a essas bonecas. E me coloquei inúmeras perguntas, bem mais que respostas.

A vocês, o que parece?

_Claudia Souza_

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

a não receita da massinha de modelar

Pegadas - obra by Maria Cecília 2006

A minha receita era assim:

  • 2 xícaras de farinha de trigo;

  • 1/2 xícara de sal;

  • 1 xícara de água;

  • 1 colher de óleo (eu uso de bebê pra ficar cheiroso)

  • Corante alimentício

Fomos fazer juntas e minha filha me ensinou assim:

  • Um montinho de farinha, faz um buraquinho com o dedo e enche de óleo

  • Um tantinho de sal

  • Água tingida até dar o ponto (ela disse: até virar massa)

E não é que a receita dela ficou bem melhor que a minha!!!

_Cibele_

sábado, 26 de setembro de 2009

Crianças educadas em casa

Mãe profissional Picasso Pablo Picasso

O supra-sumo do profissionalISMO materno taqui. Isso é que é querer-ser LITERALMENTE mãe profissional. (Uma curiosidade: não se tem notícia de pais que assumem essa função, é coisa de mãe mesmo, mesmo que a idéia seja do pai).

O que vocês acham? Posso estar errada – e adoraria ver opiniões diferentes – mas tendo a pensar que a Escola vai mal, mas não é nenhum monstro ao ponto da gente (leiga!) ter de segurar as crianças em casa e virar professora, sem formação pra isso. Acho maluquice. Onipotência demais achar que tudo que seus filhos precisam está em você. E seus derivados: achar que eles são incapazes de resolver suas questões em outros ambientes que não o familiar, querer transmitir conhecimentos para os quais não recebeu formação específica, pretender preservá-los dos sofrimentos normais da vida, etc.

Pra mim (sem contar as coisas todas de socialização, institucionalização, Educação Formal e especializada, etc), a melhor coisa da Escola é meu filho ter outros adultos de referência além de mim e de meu marido.

PS.: Muito diferente o caso de famílias (por exemplo, nômades) cujos filhos não podem acompanhar o calendário escolar e portanto participam de programas de educação a distância.

PS2: O link me foi gentilmente mandado pelo Ed Siqueira.

_Claudia_

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Programação para o fim de semana

Para os belorizontinos, mais duas atrações imperdíveis!

O Festival Internacional de Cinema Infantil

e

uma Ópera para Crianças...

Eu vou! Vamos?

_Cibele_

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Na carona dos ISMOS: O construtivismo, nossa religião


Como nômade, tive a oportunidade de circular por inúmeras escolas em diversas cidades do Brasil e tenho notado que o construtivismo tem se prestado a um papel quase religioso.

O construtivismo não é método, mas filosofia, e por isso, presta-se a inúmeras leituras e práticas. A quase totalidade das escolas se define dentro dessa concepção, embora haja escolas totalmente diversas dentro do mesmo barco. Uma vez que a maioria dos pais com mais de trinta anos foram educados no sistema tradicional, a escola passou a ser a detentora desse conhecimento codificado, envolvendo-o com ares de um mistério quase esotérico.

Certa vez, uma diretora de escola chegou a dizer explicitamente: os maiores dificultadores do desenvolvimento dos filhos são os pais. Ãn??? Não seriam os maiores aliados? Anulada a origem dos alunos e suas heranças, eles convertem-se às escolas-templos e a seus conhecimentos fetichizados. São inicializados. Já os pais, tratados como hereges, não são mais fontes de conhecimento. Se um menino pergunta aos pais se CASA se escreve com S ou com Z, não podem lhe dar a resposta. A resposta misteriosa, iluminada, deve ser encontrada pelo aluno. Aparentemente sozinho, ele segue em busca de uma iluminação, conduzido por seus gurus. Um pai arrisca...Pense meu filho, o que você acha? mesmo sabendo que as evidências sonoras apontam para a grafia errada.

Depois de um tempo, os alunos de escolas-seitas ficam muito parecidos. Vestem-se de forma parecida. Falam de forma parecida. Uniformizados, não há diversidade. Estranho, não era para cada um achar seu próprio caminho? Ao fim do período de iniciação, saem ao mundo os alunos convertidos que pensando ter dominado os princípios do universo, terão de se deparar com um mundo de múltiplas bíblias.

Não se trata de retroceder aos sistemas bancários de educação, mas de começarmos a desconfiar dessa unanimidade. E dos seus apócrifos, como disse bem meu professor outro dia.
_Cibele_

Os “ismos” na vida privada

(O post da Cibbele sobre as canções de ninar me abriu várias janelinhas).



Andy Wahol

Um amigo costuma dizer brincando que é NADA-ISTA =) “Pega o conceito mais lindo que possa existir – ele diz – mete um ista no final e acabou-se a festa”.

Os “ismos” – esses movimentos sociais invisíveis - invadiram a nossa vida privada.

O problema é que a gente vive num Sistema que nos impele a aderir a seus movimentos. Algumas adesões são conscientes, outras vão pelo piloto automático. As relações familiares estão impregnadas delas e muitas vezes a gente nem percebe que está senso moralista ou naturalista ou capitalista ou racista ou paternalista ou consumista ou profissionalista ou machista ou feminista ou comunista ou fascista ou saudosista… enfim. A gente nem percebe que está agindo em função de um movimento social, e não dos próprios pensamentos e sentimentos.

Muitos pais modernos, por exemplo, levam seu profissionalISMO pra dentro de casa e viram “pais&mães profissionais”. Isto é, devem ser pais&mães polivalentes: atualizados, bem-informados, disponíveis 100% do tempo (noite incluída), flexíveis, competentes, bem-controlados… ufa! Falta de paciência é inadmissível: se escapa uma palmada ou um grito, são três anos de culpa. Descuidos com a alimentação, a higiene, com a formação cultural dos rebentos… imperdoável, hoje dormi enquanto lia pra eles! Produtos culturais, só aqueles rigorosamente selecionados, dentro de um universo restrito(limpos, sem violência, eruditos). Brincar? Como assim, brincar é perda de tempo, está fora dos “padrões de qualidade” da família. A não ser que seja uma brincadeira pedagógica, com um objetivo preciso.

Outros preferem ser profissionais só nos respectivos trabalhos e, como bons pragmatISTAS, “terceirizam” a educação dos filhos. Afinal, tem tanto profissional capaz de “dar conta” dessas pestinhas pra gente, né? O cinema e a TV nos oferecem tantos exemplos (de Mary Poppins a Nanny McPhee, passando pelo bizarro Super Nanny) de como um elemento “de fora” pode contribuir para domar as feras que temos dentro de casa. A escola e a babá vem em primeiro lugar. “Nós pagamos, vocês eduquem”. Em último caso, superadas estas e as atividades extra-curriculares, temos o psicólogo, ora!

Alguns “ismos” se associam e assim tornam-se um “ismo” maior. Por exemplo, profissionalismo + naturalismo = higienismo. Que significa controlar obsessivamente alimentação, hábitos e até pensamentos das crianças segundo as regras do politicamente correto. Não que não seja saudável alimentar-se "bem" e ter "boas" condutas, é óbvio, mas além disso ser muito relativo, nenhuma Moral consegue ser construída com taaanto controle externo. Criança precisa de tempo e de autonomia pra construir seus próprios valores.

Tendo a pensar que se a gente conseguir ser mais NADA-ISTA talvez consiga educar melhor, com mais verdade, sem tantos exageros ou sem tantas faltas. Afinal, pressupondo que sejamos todos adultos, é de se esperar que tenhamos uma lógica formal, capaz essa sim, de tomar decisões úteis diante dos conflitos do dia-a-dia. Jogar com a Razão faz bem, nos faz menos racionalISTAS.

_Claudia_

domingo, 20 de setembro de 2009

O corpo da menina

250px-Velazquez-Meninas

As meninas – Diego Velasquez, 1656 – Museu do Prado, Madrid

A menina é um corpo de porvir. Não deve apenas crescer, como o menino, mas transformar-se para adquirir um gênero. A menina é um ser sexuado sem o layout de gênero.

Tornar-se mulher requer um esforço duplo: ir adquirindo o fenótipo feminino (e habituar-se a ele) e ao mesmo tempo identificar-se com os modelos existentes de feminibilidade de sua cultura para construir sua sexualidade.

Nem por isso a menina está invulnerável ao massacre cultural que recebe o corpo da mulher. Os jornais estão cheios de tristes notícias.

Sabemos que o corpo da mulher, associado ao demoníaco, está e sempre esteve à marcê do homem. É ele que o encobre ou o desnuda. É ele que o violenta, que o agride (chegando a mutilá-lo, como em algumas culturas africanas, com o consentimento das outras mulheres já mutiladas) ou que o submete reduzindo-o a enfeite. A mulher é ainda coisificada, mesmo depois de tanta luta, e de alguma conquista.

A maior parte das mulheres adultas (que a menina ocidental média vê), embora se considere emancipada, aceita esta condição e perde sua identidade em favor do olhar alheio, enquanto anula os traços de sua expressão e as marcas da vida (fazendo-se de alvo para a cirurgia plástica), ou encobre suas imperfeições, querendo ser “bela”. Pasteurizada, veste a capa de produto que lhe foi designada e desfila seus órgãos pelo cenário patético da artificialidade.

A menina, crescendo ou desde já, terá este corpo como referência e o tomará como seu em potência? Ou terá/buscará outros modelos? Está e estará sob o risco da anorexia, da bulimia, da depressão por não ser/parecer perfeita, por não ser reconhecida como “bela” ou “casta”? Ou compreenderá que na face pode levar as expressões de seus sentimentos e no corpo as marcas de sua história como qualquer ser humano?

A menina estará sob o risco de olhar-se no espelho e não se ver?

_Claudia Souza_

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Internet, infância, horror, cantigas de ninar e dominação cultural

Joshua Hoffine

Não deve haver uma só pessoa que não tenha recebido o clássico e-mail da(o) brasileira(o) que trabalhou no exterior cuidando de crianças, e percebeu, através dos olhos da americana dona da casa, o horror nas cantigas de ninar brasileiras. Mais um texto sem autor. Um mito que circula na internet, como tantos outros, muitas vezes atribuídos a autores consagrados.

Aqueles que veem nas letras a força da lei e nelas creem incondicionalmente, acabam mantendo uma relação de dominação com a internet e consequentemente, pelas infinitas asneiras que circulam nela. As novas gerações precisarão aprender a selecionar, num mundaréu de quinquilharias, aquilo que lhes serve.

Nesse caso específico, do e-mail sobre as cantigas brasileiras, uma pesquisa rápida pelo google nos faz ver que o texto circula tanto com o narrador feminino, quanto com o masculino. Uma das marcas registradas do disse-me-disse internético.

O assunto do texto me lembrou de um livro muito bonito, de nome O Acalanto e o Horror. Nele, a autora Ana Lúcia Cavani Jorge atribui ao bicho papão e a outros seres amedrontadores, o papel do Outro, da Lei, da Cultura, daquele que faz a interdição na relação mãe e filho. O bicho-papão antecipa a separação realizada no pai, no irmão, no trabalho da mãe, na noite, no sono. Nas cantigas de ninar, as ameaças são belamente ditas assim:

boi, boi, boi, boi da cara preta...

ou

papai foi pra roça, mamãe foi trabalhar...

ou

tutu marambá, não venha mais cá

Eu não conheço as cantigas de ninar estadunidenses, tampouco a cultura popular do país, mas dado que se trata do berço do politicamente correto, não deixa de ser interessante notar a coincidência geográfica entre o moralismo puritano e um país extremamente bélico. Entre a docilidade brasileira (pra lembrar de Giberto Freyre) e o Tutu marambá.

Por mim, continuaremos atirando o pau no gato.

Sobre o mesmo e-mail, também falou Hélio Consolaro.

Sobre terror e infância, é desconcertante o trabalho de Joshua Hoffine.

Sobre os crimes cometidos por crianças em escolas americanas, o livro Precisamos Falar sobre Kevin.

Sobre o sono infantil, arrisquei algumas linhas aqui.


_Cibele_

 
BlogBlogs.Com.Br