_Cibele_ arrumando as malas de novo
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
A melhor madrasta do cinema!
_Cibele_ arrumando as malas de novo
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
A criança, a cultura e a natureza - voltando pra casa
Entre o medo paralizante e a coragem desprecavida, a natureza exige respeito, ouvidos atentos, olhos vigilantes e uma boa dose de entrega. Uma lição que as crianças aprendem no lido com os animais domésticos e que se intensifica em alguns dias na praia ou na fazenda.
Brincar de pique-esconde sob a luz tímida da lua e a sombra cheia da noite, vencendo o medo obtuso do escuro e respeitando o perigo esquecido de pisar num formigueiro. Montar num cavalo grande e viril, vencendo o medo do comportamento imprevisível do bicho e respeitando o perigo esquecido de sua própria impulsividade. Nadar e experimentar novas formas de equilíbrio do corpo em um novo ambiente, com peso e volumes diferentes.
As fêmeas que abandonam as ninhadas, tetas insuficientes, machos que devoram fêmeas e filhotes, quebrar a casca do ovo, secar as asas recém saídas do casulo, machos que cuidam dos filhotes, primeiro vôo, fêmeas que caçam, coitos, cios, bandos, metamorfoses, cadeia alimentar, partos e mortes.
É verdade que há um certo conservadorismo na cultura da criança que se esquece de pensar a contemporaneidade como também cultura da criança. No entanto, abrir mão da natureza educadora em detrimento de representações televisivas ou librescas tem lá o seu custo...
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
sábado, 15 de janeiro de 2011
Cultura e Erudição
“Narciso acha feio o que não é espelho”
(Caetano Veloso)
Trabalhei uns tempos num projeto no Vale do Jequitinhonha, zona paupérrima no norte do estado de Minas Gerais. Meu trabalho era com as educadoras crecheiras de várias cidadezinhas em torno de Araçuaí.
No nosso primeiro encontro, dei uma aula de História da Arte que costumava dar nas escolas privadas de Belo Horizonte. Não mudei uma palavra, uma imagem sequer, pra desespero dos organizadores do projeto, que argumentavam que eu devia adaptar a aula para pessoas “ignorantes, sem cultura, coitadas”.
Realmente, as educadoras crecheiras do Vale do Jequitinhonha não eram pessoas eruditas. Falavam e escreviam “mal” o português (usavam modalidades linguísticas próprias da região e cometiam erros gramaticais e ortográficos); desconheciam informações básicas da cultura universal; tinham pouquíssima formação acadêmica (a maior parte nem tinha completado o ciclo escolar elementar). Mas nunca na minha vida obtive tão bons resultados num trabalho de formação como com elas.
Ávidas pelo conhecimento, simples, diretas, perguntadeiras, com uma facilidade de alinhavar e de estabelecer relações originais espantosa. Organizadas, respeitosas, sabidas (como diz a Ci) porque conhecedoras a fundo da cultura e do ambiente local, e principalmente das relações entre esses dois âmbitos. Exemplo: nossa oficina seria de produção de tintas a partir de pigmentos naturais (terra e plantas). Pedi a elas que recolhessem diferentes cores no ambiente. E recebi em troca uma verdadeira lição de solo e de flora. Pura Cultura.
Outra fez um projeto em que relacionava o ambiente dos quadros de Brueghel com o Vale. Nunca tinha visto na vida mulheres mais cultas.
Agora, aqui em Milão, conheci a Nazaré. Nascida e criada no sertão baiano. Até os 13 anos era analfabeta. Até os 17 vivia numa tapera sem eletricidade, no meio do nada. Aos 19 juntou as malas e foi morar em Vitória. Queria estudar. Conhecer. Entender o mundo. Lá conheceu um italiano, namoraram 2 anos e ela desembarcou em Milão com ele em janeiro do ano passado. Em julho casaram no Brasil, num típico “casamento na roça” em que a noiva chega à igreja numa carroça.
A gente se conheceu no Instituto de Cultura Brasileira, porque foi o primeiro lugar que ela, recém-chegada, foi procurar. E logo se ofereceu pra ser voluntária na biblioteca. Devorava um livro depois do outro, em italiano e em português.
Toda sexta, a Nazaré me perguntava: Qual mostra você vai ver no fim de semana? E cinema? Tem alguma outra atividade cultural que valha a pena? E fazia tudo, até mais que eu, no pouco tempo livre que tinha. Ávida pelo conhecimento, a Itália virou pra ela mais um Universo a desbravar.
Nazaré, como as educadoras crecheiras do Vale do Jequitinhonha, não é uma pessoa erudita. Mas com a sua Cultura agora está trabalhando numa Biblioteca de Milão, em projetos de inter-culturalidade, representando o Brasil. Ontem me ligou me contando de seu último projeto: um espetáculo teatral (ela se inscreveu no Teatro Universitário daqui) sobre o encontro de Emília com Pinóquio. E comentou: esses dois personagens representam bem a Ética das duas nações, você não acha?
Mais culta impossível.
_Claudia_
domingo, 9 de janeiro de 2011
O livro dos quintais
A Editora portuguesa Planeta Tangerina nos brinda com mais uma jóia rara de sua coleção.
Vejam aqui a formosura.
“Os quintais são pequenos, é verdade. Mas, com algum esforço, neles podem caber grandes sonhos e as maiores aventuras”.
_Claudia_
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Programa de férias

É só lembrar também da versão japonesa (1972) da história do Pinóquio. Foram 52 episódios produzidos pela Tatsunoko (Speed Racer) e televisionados até a década de 80. Nela, o menino de madeira e cabelo azul sofre os mais terríveis castigos, tem as pernas queimadas, encontra-se com bruxas e toda espécie de seres.

Se você vai assistir o Mundo Encantado de Gigi, não deixe de resgatar essas e outras referências. Na sessão em que fui, 4 ou 5 famílias tiveram de sair antes do final. Uma criança chorou intensamente (e esse pai não saiu, pro desespero dos que ficaram e pior, da própria criança).
É escuro, linear, arrastado, cheio de clichês, uma miscelânea de folclores do mundo todo descontextualizados e uma trilha sonora ruim. Googlando, você pode ler críticas muito mais amigas, daqueles que estudaram cinema e querem enfiar um Rintaro (Metropolis)goela abaixo das crianças. Custe o que custar.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Papai Noel e outros seres esquisitos
Quase toda cultura lança mão de figuras míticas e de lendas pra fazer com que as crianças obedeçam, seja através de prêmios ou de castigos e ameaças. E’ um modo que os adultos tem de lidar com a forte oposição/resistência das culturas infantis diante da imposição das regras de convivencia social, muitas vezes tão distantes das concepções das crianças.
Pensando nesse assunto nessa época do ano, me vem logo na cabeça o famigerado Papai Noel, que de figura mítica foi transformado em caixeiro viajante. Como é que as crianças podem acreditar que aquele sujeito fantasiado que circula pelos supermercados possa ser um velhinho mágico que voa numa carruagem de renas e traz presentes? Papai Noel virou um exemplo de como as crianças se deixam levar por certas explicações absurdas dos adultos de um modo jocoso, quase irônico, e muito compassivo, já que qualquer crença é rapidamente perdida nas informações óbvias do cotidiano.
A antropóloga Kathleen Barlow (1985) estudou o povo murik, uma comunidade de pescadores da Papuasia, povo animista cuja cultura é povoada de espíritos do bem ou nem tanto. Um desses espíritos é o Gaingeen, que aparece às vezes na vila pra perseguir e bater nas crianças (mas só se consegue pegá-las, coisa que raramente acontece). O personagem (que não fala, mas exprime suas intenções com gestos ameaçadores, chutando e balançando as lanças e os bastões que leva sempre consigo) pode ser pavoroso e portanto útil por um tempo, mas com o crescimento fica fácil observar que ele não aparece sempre que é invocado, além de não ser raro surpreender os irmãos mais velhos enquanto se fantasiam. Dai à intuição de que o gaingeen “verdadeiro”, aquele que aparece na vila, poderia ser também uma máscara, é um pulo.
É’ o preço (alto) que as culturas adultas pagam por querer personificar essas figuras, que ficariam melhor se fossem restritas ao campo da ficção.
_Claudia_
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Retrospectiva Quintarola 2010
Em fevereiro, estive caladinha, possivelmente desempilhando caixas, enquanto a Clau escreveu excelentes posts sobre a cultura brasileira.
Em março, A Clau cobriu a Feira de Bologna, onde lançou A Princesa, enquanto eu pensava sobre a necessidade de, depois de tantas mudanças, diminuir o relativismo ético da minha casa. Teve ainda post sobre Contos folclóricos, uma polêmica sobre bullying e reflexões sobre adaptação escolar.
Em abril, a Clau segurou a onda com vários posts sobre literatura infantil e eu continuei encafifada com o assunto ética para crianças.
Em maio, a Clau estava bombando com seus livros e foi inevitável que a gente falasse mais de literatura infantil. Aproveitei pra unir literatura e ética e depois literatura e cinema. E teve Alice.
Em junho, a Clau veio pro Brasil e foi tão, mas tão bom revê-la, que nem sei. Teve encontro Quintarola, o Saramago foi embora, teve post sobre festas escolares e mordidas.
Em julho, teve o revezamento na brincadeira dos primatas, reflexões sobre pedagogias diversas: logosofia e waldorf, Copa do Mundo, contos de fadas, preparativos para férias...
Em agosto, a Clau começou a reproduzir o Diário da Amazônia da Regina Marques, teve Toy Story 3, FIT, Música de Brinquedo, brincadeiras cantadas, Filosofia para Crianças, a polêmica sobre as palmadas e as armas nas brincadeiras infantis.
Em setembro, a gente tava meio contemplativa. Vai ver foi a primavera. A Clau voltando pra casa e eu viajando pelo planeta dos pequenos gestos.
Em outubro, as reflexões sobre cultura popular tomaram conta da casa. No Brasil, os blogs tiveram papel importante nas eleições, mas as pessoas continuavam a utilizar essa ferramenta de forma pouco crítica.
Em novembro, aniversário das quinteiras e do Quintarola, teve balão, Senna, a mulher e a educação, história da infância, Maria Rita Khels, hai-kai, e eleição da Dilma e as relações entre política e infância.
Em dezembro, coloquei meus dois pés no mestrado, tivemos momentos nostálgicos típicos dessa época do ano. A Clau escreveu um post lindo, lindo sobre a morte.