Mostrando postagens classificadas por data para a consulta corsaro. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por data para a consulta corsaro. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Aventuras de um adulto atípico

Uma das técnicas de entrada em campo do Corsaro, sociólogo americano que a gente já citou aqui várias vezes, é a proposta de um adulto atípico.  Um adulto que se comporte de forma diferente da habitual para que consiga ter acesso ao universo da criança.

Mas quem é o adulto habitual? Aquele que é grande? Aquele que tem a autoridade? Aquele que sabe o que as crianças não sabem? Aquele que repreende?

Com as crianças italianas, Corsaro utilizou-se de sua falha linguística. Ele era um adulto que não dominava a língua, um in-fans de grande estatura. Além disso, ele combinou com as professoras que não teria função de autoridade naquele grupo.

Ano passado, fiz duas experiências de entrada em campo com essa proposta. Na primeira, numa escola tradicional, a entrada foi como prevista: as crianças rapidamente me viram como um adulto que não sabia e que não repreendia. Acharam estranho que eu copiasse também toda a informação do quadro, fizesse os exercícios. Um adulto-aluno. Em seguida, começaram a testar minha autoridade e quando viram que eu não me colocava como autoridade, sentiram-se mais à vontade.

Na segunda escola, uma escola mais democrática e  não tradicional, cheguei e ficar insegura. Que horas as crianças me dariam o sinal? Ninguém estranhou as minhas perguntas, já que nessa escola, os professores também se colocavam como pesquisadores que descobriam junto. Quando a professora saiu de sala, as crianças agiram da mesma forma que na presença dela. As regras continuaram a valer, garantidas não pela autoridade do adulto, mas pelo grupo. Eram crianças educadas para a autonomia.

Quando agi no lugar do adulto tradicional, ajudando com meus critérios de ajuda, fui repreendida por uma criança. Ela tinha me emprestado seus lápis de cor e quando fui guardar, apontei os que estavam sem ponta e organizei o estojo. Pega na minha “boa” ação, ela me disse: Ah, não, você bagunçou tudo! Não é assim que eu guardo. As minhas cores preferidas, as que eu uso mais, ficam na frente.

Essa experiência evidenciou que para entrar como adulto atípico é preciso primeiro saber que arquitetura simbólica organiza aquela infância e aquela adultez.

Passadas as minhas primeiras dúvidas, descobri que, para conseguir a confiança daquelas crianças, eu precisaria muito mais do que uma lista de providências ou comportamentos ensaiados, mas de tempo, convivência e contato.  E entendi o que a professora deles quis dizer quando me apresentou, muito sabiamente,  dizendo: Essa é a Cibele, ela vai nos conhecer um pouquinho e nós vamos também conhecê-la.

E depois me vieram outras dúvidas…

_Cibele, muito prazer_

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Primeira medida lúdica quinteira: um desafio

Seguinte. Eu e a Clau inventamos um jeito de postar diferente que vai ser assim. Como num repente, num desafio, cada uma propõe um tema pra outra desenvolver.




Vou ser a primeira porque de longe não dá pra tirar par ou ímpar e a vez me foi gentilmente cedida (além do quê eu ganharia de qualquer jeito, hohoho).




Então, lá vai o meu tema de post pra Clau que tem, no máximo, uma semana pra escrever sobre isso:




Seguinte…a gente sabe que a infância é uma ideia social e historicamente construída e que criança sempre houve, mas infância não. Então eu queria saber se você consegue enxergar, já que a sua formação é em psicologia, alguma universalidade na infância. Isso é, há alguma característica que você veja como universalmente constituinte da infância? Sim, não e porque. Mas tem mais…há alguma característica na infância italiana que você bata o olho e reconheça como sendo também brasileira? E diferenças? No seminário do Corsaro, uma professora perguntou se as crianças italianas também desenham aquele sol no canto da folha ou se isso era uma característica das crianças de um país tão ensolarado como o nosso. Como ele não respondeu, passo a bola.




Essa foi até fácil…vou pensar aqui num tema mais saia justa pra semana que vem.




Clau, Pode mandar a minha. E os leitores também podem participar.




beijos,




_Cibele_


PS: Para saber o que é uma medida lúdica, vide dois posts abaixo.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Promessa é dívida ou antes tarde do que nunca


Prometi falar do Corsaro quando estive no Seminário em Brasília e não o fiz porque demorei 3 meses para digerir a reprodução interpretativa. Fazer resumo é muito chato e qualquer um pode fazer isso numa biblioteca perto de você. No fim, a gente quer é dar pitado e contar uns casos. Mas vamos ao resuminho pra depois prosear.


Corsaro criou conceitos importantes para a sociologia da infância como “reprodução interpretativa” e “cultura de pares”.


Reprodução interpretativa: O termo interpretativa captura os aspectos inovadores da participação da criança na sociedade, indicando que as crianças criam e participam de suas culturas de pares singulares por meio da apropriação de informações do mundo adulto de forma a atender aos seus interesses próprios enquanto crianças (Giddens). O termo reprodução significa que as crianças não apenas internalizam a cultura, mas contribuem ativamente para a produção e a mudança cultural. Significa também que as crianças são circunscritas pela reprodução cultural (Bourdieu).


Cultura de pares (peer culture): conjunto estável de atividades ou rotinas, artefatos, valores e interesses que as crianças produzem e compartilham com seus pares, primariamente por meio da interação face a face.


Mas o mais legal do Corsaro é a proposta metodológica que consiste numa entrada em campo muito específica. Primeiro ele faz uma entrada reativa. Chega, senta e espera as crianças reagirem. Nada mal, já que os adultos não entendem muito bem como é que se chega num grupo infantil. É só fazer um teste: chegar num grupo de crianças e começar a perguntação adulta: Oi, como vai? O que vocês fazem aqui? Como você se chama? Perguntas que as crianças jamais fariam. Mas além disso, ele propõe que o adulto se comporte como um adulto atípico que, abrindo mão de sua autoridade, ganha um acesso privilegiado ao universo infantil.


O psicólogo César Ades explica que o adulto atípico Não é um retorno ao que o adulto foi um dia, mas uma forma de ele estabelecer um contato social diferente e, por meio dele, aprender como se aprende sempre através da interação. (p 128) ...“É preciso que o adulto desista um pouco, como num mundo de faz de conta, do poder que lhe confere o papel tradicional de adulto, como quem se agacha para falar com as crianças, estabelecendo uma proximidade ao mesmo tempo física e simbólica.”


Semana passada, fiz minha primeira inserção num grupo infantil experimentando esse adulto atípico. No segundo dia, participei do seguinte diálogo:


“_Você faz faculdade de quê?_perguntou a menina.


_De Educação._respondi.


_Ah, então você vai ser professora quando crescer?”


Uma pequena mostra de que o adulto atípico pode ajudar demais aos adultos que querem ter um acesso privilegiado aos grupos infantis.


_Cibele_

sábado, 19 de março de 2011

Alma


A aproximação da infância com o terror me interessa bastante. Falei do assunto nesse post e também nesse post. O premiado curta Alma (abaixo), do animador da Pixar Rodrigo Blass, é um belo exemplo do que tenho notado. Muito marcada no cinema, a infância como tempo de medo, angústias e estranhezas já chegou à literatura, Clau? Deixo vocês com o curta e minha participação modesta. Semana que vem, volto contando do seminário do Corsaro.

_Cibele_ arrumando as malas rumo ao Planalto Central

sábado, 12 de março de 2011

Vamos???


Seminário com Willian Corsaro "Participação da Criança na Sociedade Civil", na UNB, de 21 a 23/03. Lançamento do livro no dia 21. Mais detalhes, aqui.

_Cibele_


domingo, 6 de fevereiro de 2011

Brasileirinhos no mundo

Trabalhando no IBRIT, Instituto Cultural Brasil Itália, estou tendo a oportunidade de encontrar muitas crianças brasileiras ou filhas de brasileiros que vivem e crescem por aqui, com pouco contato com o Brasil.

bras no mundo

Oficialmente, as que são filhas só de um pai ou mãe brasileiro(a) com o(a) outro(a) italiano(a) são consideradas italianas, podendo ter a dupla cidadania se forem registradas também no Consulado Brasileiro; as que foram adotadas por casais italianos obtém a dupla cidadania automaticamente ; já aquelas filhas de ambos os pais brasileiros, mesmo tendo nascido aqui, são consideradas brasileiras (na Itália a cidadania é por hereditariedade, não por territorialidade, isto é, mesmo tendo nascido aqui, se nem o pai nem a mãe são italianos a pessoa mantém a cidadania de origem).

São variáveis legais, na prática muda pouco. É claro que, vivendo aqui, todas elas absorvem muito mais a cultura local, mesmo que a família se preocupe em transmitir-lhes paralelamente a cultura brasileira.

Nessa transmissão tem o filtro do adulto ou das experiências fugazes de férias: não é atual, não é genuína, não é vívida, não é contínua. A verdadeira cultura de pares que vai sendo incorporada, reproduzida e reinterpretada (Corsaro) óbvio, é a italiana. A brasileira fica de lado, quase esquecida, ou então aparece deformada em exageros de identificação (por exemplo, é muito comum os pais brasileiros se pautarem na cultura indígena pra falar de Brasil pros filhos, mesmo que tenham vindo de São Paulo).

Daí que se torna importante, da parte dos organismos culturais brasileiros no exterior (em que o IBRIT se inclui) intervir no sentido de reforçar nessas crianças os laços com suas raízes culturais. Temos pensado que o mais importante é formar grupos de brasileirinhos, pra que as crianças possam viver uma cultura brasileira autêntica junto com outras na mesma situação. A partir dessa linha mestra, planejamos sessões de cinema, oficinas, encontros de mães, mostras, conta-contos além de uma biblioteca infantojuvenil de livre consultação.

Agora estamos pensando também em levar essas atividades às escolas onde estudam crianças que têm alguma relação com o Brasil. O objetivo é atingir o público italiano compartilhando a cultura brasileira como é de verdade, sem os inúmeros estereótipos e lugares-comuns que se vêem por aqui. A gente acredita que isso também possa ajudar e muito! os pequenos cidadãos (brasileiros e italianos) a encontrar afinidades culturais.

Para uma consciência planetária (Morin) é muito importante não olhar as outras culturas apenas pela lente do exótico, do diferente, do diverso, vale tentar descobrir semelhanças. É óbvio que as culturas são múltiplas e variadas e que isso deve ser considerado, mas foi de um sentimento exagerado de alteridade que nasceram as perigosas idéias fascistas que serviram de base para as maiores atrocidades do século XX.

A partir das semelhanças é que os brasileirinhos no mundo poderão construir uma identidade mais efetiva de si mesmos e das duas (ou mais) nações que os acolhem.

_Claudia_

 
BlogBlogs.Com.Br