quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Encanto

E quando as crianças brincam de olhar as nuvens? Ou de pensar na morte da bezerra? De acompanhar o ritmo das formigas? Os gravetos, os troncos, as pedrinhas. Alguma coisa que flutua na água. Ou até de morrer (estirada no chão do quintal, imóvel, por hooooooras…).

Criança é confundida com atividade. As brincadeiras contemplativas – cuja ação é “de dentro” - são muitas vezes motivo de preocupação entre pais e educadores.

Esse menino ‘tá quieto demais. ‘Tá doente? E se estão em companhia: estão aprontando alguma coisa!

Por isso ou porque não reproduzem as atividades adultas “normais”, como no jogo de faz-de-conta (que aos olhos adultos parece previsível mas quem se dispõe a observar de perto percebe rapidamente que pode ser muito transgressivo).

Num artigo muito bonito*, a Doutora Alessandra Mara Rotta de Oliveira, da Universidade de Santa Catarina, diz que a brincadeira contemplativa

provoca a imaginação dinâmica e criadora. E não nos enganemos, exige esforço, exige tempo. Falamos aqui de um tempo de criação que contém em si a contradição fecunda da inércia, do ócio e do movimento, da ação, da experimentação e da contemplação. Este jogo entre imaginação criadora e os elementos da natureza exige um tempo e um esforço concretos(…).

tra le nuvole

* Texto publicado no livro: FRITZEN, Celdon e CABRAL, Gladir S. (orgs) Infância: imaginação e educação em debate. Campinas SP. Papirus 2007, p. 73-90.

As brincadeiras contemplativas (sempre ativas) aparecem, felizmente, com muito mais frequência que se imagina entre as crianças. De fato, nenhum brinquedo ou atividade estruturada jamais será capaz de substituir a natureza como referência, como mestra dos processos imaginativos e da Arte.

_Claudia_

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O Folclore Obsceno das Crianças

Cabra-cega, 1788
Francisco Goya, Espanha, 1746-1828
Óleo sobre tela, 40 x 41 cm
Museu do Prado, Madri


Para quem ainda imagina uma infância idílica, lugar de inocência e sonho, essa idéia é a prova dos nove. Existe, afirma o antropólogo francês Claude Gaignebet, um folclore obsceno infantil que vem sendo transmitido horizontalmente, independentemente dos adultos e mais ainda, a despeito deles. Duvidam? Olhem só essa versão da cantinela do cabra cega:

“Cabra-cega de onde vens? Do Castelo Trazes ouro ou trazes prata? Trago ouro! Vá beijar no cu do besouro. Trago prata! Vá beijar no cu da barata.”

Esse é o meu objeto de estudo. A função desse conteúdo dentro das sociedades infantis, as forças coercitiva e de resistência são pontos a serem observados. Quem quiser contribuir com outras pérolas do folclore obsceno infantil, ganha um doce! (Os mais tímidos podem escrever para cibbelecarvalho@gmail.com). E nada de sair por aí ensinando isso pras crianças, heim! Nessa brincadeira, adulto não tem vez!


Cibele

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A infância de Gaudí

No Museu sobre Antoni Gaudí que tem dentro da Sagrada Família, também em Barcelona, encontrei um textinho simples mas muito significativo sobre a infância dele. O Marco fotografou pra gente:

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Traduzindo: Antoni Gaudí i Cornet nasceu no ano de 1852, na zona rural do Campo Baixo (Tarragona). Pequeno, tinha uma saúde muito fraca e seus contínuos ataques de reumatismo o separaram das brincadeiras de crianças e atrasaram seu ingresso na escola elementar. Sua mãe passava muitas horas com ele e o distraía com passeios pelo campo, observando a natureza.

Recordando sua infância, Gaudí, já adulto, escreveu: “com os maços de flores, rodeado de vinhedos e oliveiras, animado pelo cacarejo das aves, o piar dos pássaros e o zumbido dos insetos, e com as montanhas de Prado ao fundo, captei as mais puras e prazerosas imagens da Natureza, essa Natureza que sempre é minha Mestra”.

Esta citação nos revela que os primeiros anos de vida de Gaudí foram chaves em seu caminho até uma arquitetura inacreditavelmente singular, naturalista e orgânica.

Vendo o trabalho dele, dá pra perceber como a Natureza é realmente sua maior inspiração. E é de arrepiar. No Museu tem essas instalações explicando a referência que ele usava da geometria natural em seus projetos arquitetônicos.

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E no fim, dá nisso (deixo de fora o Parque Guell de propósito, porque um dia quero fazer um post só sobre ele):

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Fotos minhas e de Marco

Sempre achei que os primeiros anos de vida determinam todo o resto. E que uma educação vivenciada e mediada pelo afeto vale muito mais que qualquer erudição.

_Claudia_ Esta série de posts de viagem termina aqui. Agora a bola tá com a Cibbele.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A Fundació Miró em Barcelona

Passeando pelo site da Fundação vocês podem até se divertir tentando ler em catalão =)

Fiquei impressionadíssima com o tanto de atividade educativa que desenvolvem lá. Entre visitas comentadas, oficinas, espetáculos, ateliês… um monte de coisa pras pessoas conhecerem e se aprofundarem na história e na obra do grande mestre catalão. Essa história de que museu de arte é lugar tedioso pra criança ou então que tem de fazer muita pantomima pra “atraí-las”, pelo menos ali, é coisa do passado. A Fundação se articula pra oferecer atividades significativas e divertidas ao mesmo tempo, pra que não só as crianças, mas o público em geral possa aproveitar a experiência e se enriquecer culturalmente, de modo ativo e crítico. O que no fim das contas é o objetivo de um Museu.

O prédio é imenso e sua arquitetura um espetáculo à parte, além de bastante acessível.

Confesso que deu nó na garganta ver os quadros e as esculturas dele ao vivo. Como diz a Maria Isabel Leite no ótimo livro Museu, Educação e Cultura, “que bom que possamos ter acesso a vídeos, CD-ROMs, etc, para ampliar nossas possibilidades e nosso contato com as diferentes linguagens. Mas uma experiência indireta com a obra não substitui a experiência direta”.

Não só de áreas fechadas é feita a Fundació Miró. Os jardins das esculturas são um ambiente pra lá de agradável.

Por ali, dá até pra parar e se alienar um pouco com a água, enquanto se admira as belíssimas esculturas. Né, meninos?

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Foto minha

_Claudia Souza_

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Brinquedos no parque...

Olhem que lindos esses espaços equipados pra brincadeiras no Parque Joan Miró, centro de Barcelona. O Parque é uma delícia, super amplo e arborizado, ótimo pra passear e pra observar passarinhos (vi um monte de periquitos lá!). Ali está a imensa e emocionante escultura de Miró, Dona i Ocell (A mulher e o pássaro). Fiquei embasbacada e sim, tirei fotinha do lado =)

Mas vamos aos espaços, que fotografei especialmente pra vocês:

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São várias “ilhas” espalhadas pelo parque, e em cada uma existe uma plaquinha com indicações da faixa etária mais indicada e sugestões de “desdobramentos” de brincadeiras a partir do ambiente. Mas não são espaços proibidos aos adultos não, pelo contrário.

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Aliás, o que achei mais interessante foi justamente a possibilidade de interação entre adultos e crianças nos diversos brinquedos/espaços. Na foto acima, uma menininha brinca de amarelinha junto com o pai. Na debaixo, o pai entra no brinquedo junto com o filho e se diverte também.

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Já os brinquedos típicos de parque adquirem uma leitura nova e interessante (notem o escorregador vasado) :

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Adorei essa espécie de tirolesa feita com pneu velho (tá, eu puxo a sardinha mesmo pros materiais recuperados). Super simples e divertida! Deu vontade de ir também. Mas ‘tava calor demais =)

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(Deu procês entenderem pela foto? Tinha um fio esticado diagonalmente entre um patamar e uma árvore, as crianças vinham do patamar e desciam deslizando pelo fio até a árvore, onde havia um outro pneu bloqueando e amortecendo a chegada.)

_Claudia_ (em breve tem mais dessa série)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O mineirês europeu

catalão

O idioma catalão é tão bonitinho. Me pareceu basicamente um encontro do espanhol com o italiano e o francês. A gente vê isso no vocabulário, por exemplo mulher não é mujer, é dona (em italiano, donna). Amigo é amics (e se pronuncia como em francês, ami). Pra dizer até amanhã, dizen fins demàs (em francês, demain e em italiano fino a). E tem essa coisa de terminar as palavras antes da hora, de comer letra, mas não é só no oral não, é no escrito também. Fundació, ao invés de Fundación. Passeg ao invés de Passeggio. Parece mineirop falando. Tem ainda o modo engraçado de separar a palavra com um hífen: Paral-lel, col-lecció… quando a letra é dobrada. Essas algumas regulariades que identifiquei assim por alto.

Eu ficava tentando ler as coisas nas ruas igual menino aprendendo a ler. Ótimo exercício quando a gente vai num país de língua diferente da nossa. Até na Bélgica consegui, usando o contexto e a curiosidade, extrair algum significado das placas em flamengo, ou melhor, neerlandês (como é mais correto dizer).

Em Barcelona foi bem mais fácil, claro. Cruzamento de línguas já minhas conhecidas.

Criança aprende a ler assim, fazendo leitura contextual. Desde muito pequena. Inútil achar que só vai ver as letras na escola. Inútil também essa coisa de tentar esconder as letras delas antes da alfabetização (tem gente que até marca idade, 7 anos). Afinal já nascem num mundo que é todo letrado. Tem letra pra todo lado e elas, claro, se perguntam o que é aquilo e pra que serve aquilo, como todo o resto.

Eu concordo em só começar um trabalho sistematizado a partir de uma certa idade (antes é perder tempo de coisas mais importantes), e essa idade a própria criança nos indica. Geralmente os meninos mais tarde (tipo 7) e as meninas um pouquinho mais cedo (entre 5 e 6 anos). Mas que eles ‘tão investigando o tempo todo, ah isso ‘tão! E não custa responder a algumas perguntas com sinceridade e até estimular o raciocínio. Brincando.

O Letramento (muito mais amplo que a alfabetização) é um processo pessoal, super lindo, que começa no berço.

_Claudia_

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Pra começar...

Com a filhinha da prima do Marco, Marta, de um ano, descobri que aqui na Italia também fazem aquelas brincadeiras com criancinhas pequenas, tipo:

Janela, janelinha (tocando os olhos)
Porta (boca) campainha (nariz)
peeeemmmmm (apertando o nariz).


Aqui é assim:

Questo è l'occhio bello (este é o olho belo - tocando um olho)
Questo è il suo fratello ( este é o seu irmão - tocando o outro olho)
Questa è la chiesina ( esta é a igrejinha - tocando a boca)
Questi i fratini (estes os fradezinhos - tocando os dentes)
E questa la campanella (ou campana - e este é o sino - tocando o nariz)
Ding dong! (apertando o nariz) =)

Outra com os sentidos, igualmente deliciosa:

Mette il gettone (coloca a moedinha - fingindo que introduz uma moeda no olho da criança)
Schiaccia il bottone ( aperta o botão - nariz)
Giri la manovella (Gira a manivela - girando a orelha)
Esce la caramella! (e sai a bala! (ou caramelo, pra rimar melhor) - fingindo que pega uma balinha da boca da criança).

No repertório de brincadeiras tradicionais, existem umas tantas dedicadas aos muito pequenininhos. Como estas, de rosto, as cadeirinhas de Belém, dos dedos das mãos (mindinho, seu vizinho...), a do homenzinho (nossos dedos médio e indicador) que percorre o braço e encontra a casinha na orelha da criança... e aí vai. Notem que são todas de contato corporal muito leve, embaladas por parlendas doces e delicadas, recitadas em tom de voz quase onírico e muito amoroso.
É essa a proposta da Cultura da Criança pro início da Vida.

_Claudia_

Nas minhas férias de inverno...


Aproveito pra contar das minhas férias (tá, tá...recesso!) de julho também. Estivemos numa exposição chamada Artes para Crianças (tour pelo google, aqui), que esteve em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, mas infelizmente não chegou a BH. Fiquei encantada ao ver as crianças se aproximando da linguagem artística, num ambiente que dispensa alguns protocolos desnecessários, mas faz manter o respeito pela obra. À esquerda, uma vídeo instalação do nosso conterrâneo (salve, salve) Éder Santos, capaz de fazer sonhar até os mais incrédulos. À direita, uma sala com 381 xilografias bem pequenas de Rubem Grilo e entre elas uma surpresa que não posso contar. Tinha ainda Ernesto Neto, Amilcar de Castro e até Yoko Ono. Foi bonito, Clau! E eu me segurei pra viver aquilo sem tirar tantas fotos, porque deu vontade de mostrar tudinho aqui!
Tentei ir ao Safari em SP, mas amanheceu que era uma chuva só ! E por último, visitamos o Museu de História Natural de Taubaté que tem uma especificidade em relação a outras abordagens da pré-história. O Museu adota como mascote, não as espécies mais conhecidas pelo cinemão, habitantes da américa do Norte. No lugar disso, o paparicado é o Fisó, Paraphysornis brasiliensis, uma ave gigantesca e carnívora que viveu há 23 milhões de anos na região de Taubaté. Só não gostei de não poder tirar foto...
Beijos e que bom que você está de volta!
Ci _ aguardando mais notinhas de viagem da Clau


 
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