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quarta-feira, 11 de março de 2009

Nem pobre, nem antiga, nem idílica

Para Ju Sampaio que levantou essa bola lá nos comentários e sugeriu que virasse post

Muito do estudo sobre a infância se dá pelo viés da negação. Sabemos o que não deve ser feito mais do que o que deve ser feito. Sem dúvidas há uma crise de paradigmas. Críticos de nossa própria cultura (do consumismo, do tempo acelerado, do virtual), corremos o risco de falar sobre uma infância-negativa, aquela que não existe. Ou porque já passou (infância nostálgica), ou porque nunca existiu (infância idílica) ou por ser a negação total da infância que vemos da nossa janela.

A infância nostálgica
Caímos nela quando usamos como prumo a nossa própria infância. É lugar comum no sermão do adulto dizer: “Na minha época, isso não era permitido!” ou “aquilo é que era infância (ou brinquedo)”, como se essa diferença fosse em si, razão suficiente pra dizer que uma é melhor que a outra. Os brinquedos antigos, a escola de outrora, os velhos valores, seriam mesmo melhores? A própria idéia do resgate da cultura da infância pode levar-nos ao erro de desmerecer a cultura infantil contemporânea, imaginando que seja cultura apenas o que já está esquecido. É o conservadorismo de roupa nova.

A infância idílica
É aquela infância dos tons pastéis ou das cores fortes e muitos diminutivos. A infância da delicadeza, da imaginação pura e da alegria como estados permanentes do infantil. Uma infância sem os medos, as angústias, os sentimentos de culpa e de injustiça. Uma infância quase parnasiana.

A infância pobre
Boa pescaria da Clau, quando lembrou da fala de Paulo Freire: “a falta educa mais que o excesso”. Essa frase faz muito sentido pra quem vive imerso e atuante na sociedade de consumo. Sentir a falta quando tudo já se tornou descartável, é belo aprendizado. Contudo, a mesma frase perde totalmente o sentido se dita de dentro da pobreza. A crítica ao consumismo não é um voto de pobreza, mas a resignificação do objeto (objeto vivo, diria a sócia). O ode à escassez de recursos ou a estética da pobreza parecem acalmar a culpa, quase que invertendo o jogo: felizes são eles que não sofrem com todos os nossos excessos...

Para entender de onde surgiu essa conversa, o caminho é esse.
Para estender a conversa por novos caminhos, grite ô de casa aí embaixo.
Cibbele Carvalho

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O Folclore Obsceno das Crianças

Cabra-cega, 1788
Francisco Goya, Espanha, 1746-1828
Óleo sobre tela, 40 x 41 cm
Museu do Prado, Madri


Para quem ainda imagina uma infância idílica, lugar de inocência e sonho, essa idéia é a prova dos nove. Existe, afirma o antropólogo francês Claude Gaignebet, um folclore obsceno infantil que vem sendo transmitido horizontalmente, independentemente dos adultos e mais ainda, a despeito deles. Duvidam? Olhem só essa versão da cantinela do cabra cega:

“Cabra-cega de onde vens? Do Castelo Trazes ouro ou trazes prata? Trago ouro! Vá beijar no cu do besouro. Trago prata! Vá beijar no cu da barata.”

Esse é o meu objeto de estudo. A função desse conteúdo dentro das sociedades infantis, as forças coercitiva e de resistência são pontos a serem observados. Quem quiser contribuir com outras pérolas do folclore obsceno infantil, ganha um doce! (Os mais tímidos podem escrever para cibbelecarvalho@gmail.com). E nada de sair por aí ensinando isso pras crianças, heim! Nessa brincadeira, adulto não tem vez!


Cibele

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A infância...de idílica a onírico-pesadelídica



É cada vez mais comum na produção cultural o casamento entre o terror e a ingenuidade. Dos contos de fadas de Tim Burton, passando pelas obras da artista plástica argentina Flávia de Rin, o fato é que o lado mais sombrio da infância resolveu mostrar suas garras. Até mesmo o Spike Jones já afirmou sobre o recém lançado "Onde Vivem os Monstros" que se trata de um filme sobre a infância, mas não para crianças. Sem falar no esperado Alice no País das Maravilhas do mesmo Burton.


O Estranho Mundo de Jack (1993), A Noiva-Cadáver (2005) e a Casa Monstro (2006), Os Fantasmas de Scrooge (2009) passeiam desavisadamente nas prateleiras de filmes infantis das locadoras. Digo desavisadamente não porque ache que o limite entre o infantil e o não-infantil seja muito definido, mas porque são filmes que podem assustar verdadeiramente algumas crianças. "Definitivamente não é um filme infantil" é o que mais se ouve por aí. Não iria tão longe. Melhor seria assistir ao lado, preferencialmente já tendo assistido antes. Às vésperas da minha mudança, resolvi vetar o Coraline por aqui, mas pretendo liberá-lo tão logo tudo volte ao normal.

As relações da infância com o terror rendem muito assunto e dizem da necessidade social de preservação dessa idéia, dessa construção histórico-social que é a infância. É só pensar nas adaptações dos contos dos irmãos Grimm e em como as histórias folclóricas de medo foram sumindo da nossa cultura.

No terreno da mais pura opinião, ainda temo que esse confinamento cultural custe caro e gosto de observar como cada criança lida com seus próprios monstros.

E vocês, mostraram ou mostrariam esses filmes aos seus filhos e alunos?

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Nesse blog, uma monografia de duas alunas de comunicação social da PUC Minas sobre Tim Burton.

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Cibele

sábado, 22 de maio de 2010

Ética para crianças - volume 5 - Moral e literatura




Alguns livros e autores gostam de se aproximar dos limites morais. Nada mais saudável. É no limite que surgem as questões e a literatura que levanta perguntas se mostra bem mais legal do que a literatura que assenta certezas. A estética e a ética parecem ser mesmo os domínios onde a opinião de cada um pode se apresentar com mais conforto. Onde a opinião de cada um dialoga com a do outro, sem necessariamente se misturar a ela. Há extremos. Principalmente na ética. Ainda que os universais estejam em franca decadência, eticamente precisamos negociar um pacto de convivência pacífica, se não quisermos cair num relativismo absoluto.
E a literatura infantil? Sabemos que ela caminhou de um período muito moralista para uma atualidade em que convivemos ao mesmo tempo com a tentativa de preservação da infância e a exploração desses limites do infantil, ou até da ameaça de sua extinção como afirma Neil Postman. A infância estranha, a infância não tão pura, a infância nada idílica. (Sobre isso, falamos nesses dois posts)

Em algumas obras as crianças são verdadeiramente subversivas. Textos amorais e por vezes até imorais. Tem o bem que aniquila o mal com requintes de crueldade. Parece paradoxo? Numa leitura mais superficial, sim, mas se levarmos em conta os recursos simbólicos de que a leitura infantil lança mão, não. Há ainda obras em que, nem mesmo o simbólico, resguarda sua dimensão moral.
A Ana Paula e a Paula, professoras do Libertas, me mostraram um livro exemplar nessa discussão: "O menino que gritava:_Olha o Lobo!". Pra explicar o nó do livro, eu teria de contar a história todinha, até o fim, e como isso não se faz, fica a sugestão de leitura. Só digo que o Lobo ganha e o menino se dá mal...

Aqui tem um trechinho de uma entrevista do autor Tony Ross, em que ele explica a vitória do Lobo. Segundo o autor, o Lobo ganha porque ele é um cara legal, o menino é que mentia. Eu não vi "legaleza" nenhuma no Lobo. Só porque ele era de finos modos? Aliás, são justamente os finos modos do rapaz que tiram dele seu único álibi: a possibilidade de matar para saciar seus instintos. Esse Lobo consegue combinar requintes de maldade e banalidade. Por mim, o destino dele não seria outro que um caldeirão fervendo ou a mira da espingarda do caçador!

E se ninguém ainda perguntou o nome do Lobo, como diz uma passagem do livro, deve ser, justamente, porque ele aparece em histórias em que as personagens são arquetípicas, não? Ou por que a única menina que resolveu fazer perguntas a um Lobo terminou devorada por ele, travestido de sua vovozinha.

Pra discutir,o livro é ótimo, mas se o pressuposto for esse, não se trata, definitivamente, de um livro para crianças muito pequerruchas, cuja leitura ainda está marcada pela falta de distinção entre o real e fantasia.
Num mundo em que as fronteiras entre os conteúdos adequados à infância andam embaçadas, percebo cada vez mais a necessidade da mediação do adulto na cultura produzida para crianças. Não é porque está na prateleira dos infantis, que os livros são inofensivos. Não é porque está escrito que é bacana. Além disso, na categoria infantil cabem idades muito diferentes. E nas idades cabem várias individualidades.
Acho que não gostei desse livro, não...Obrigada Paula e Ana Paula pela oportunidade de pensar com vocês...
_Cibele_ que depois de sumir na semana passada porque o pc foi parar no técnico, voltou definitivamente verborrágica.





 
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