segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Uma palmada bem dada?

(Ihhh, já tô vendo gente queimando a poesia da Cecília Meireles).

cecilia_meirelles

Ironia à parte, não acho que palmadas e beliscões eduquem, muito pelo contrário, nem que sejam necessários. Na época dos meus pais (e da Cecília) era um costume e o fato de ser um costume mediava as reações de pais e filhos, tornava-o compartilhado e portanto aceitável. Hoje já dá pra enxergar(claro, nas devidas proporções) como um atestado de falta de recursos e/ou de perda de controle. Mas a gente que é pai e mãe e é humano sabe muito bem como esse tão almejado controle é difícil de se conseguir, e como os recursos educativos são complicados de se construir. Haja autoexame e reflexão, haja divã!! Tudo isso leva tempo e paciência e nesse interim a gente erra muito exercendo a pater/maternidade.

A gente erra, simplesmente. Continuamente e não só quando dá palmada (tem erros piores). Erra querendo acertar. Erra mais do que deveria. Erra porque faz e porque é verdadeiro. Não somos perfeitos, não temos manuais e mesmo se tivéssemos, não conseguiríamos seguir metade das instruções. Mais fácil ser ausente, a gente corre menos riscos. Mas em Educação é importante tentar, é importante fazer pra ir aprendendo a seguir as próprias convicções. Ninguém tem a fórmula pra todo mundo, cada situação é unica. Mesmo um erro pode ser um acerto se visto de outros pontos de vista. Vai-se saber. O que não se deve fazer é renunciar, desistir. A gente tem de querer educar.

Pra mim, essa Lei que proíbe palmadas e beliscões parece um tanto bizarra. Tenho dificuldade de vislumbrá-la na prática. Tem até um cheirinho de fundamentalismo. Primeiro porque é uma estatização das relações familiares e isso me assusta. Fico pensando onde é que vai parar. Segundo porque as linhas divisórias entre os diversos atos, suas dimensões e seus significados são tãao sutis que nem uma Justiça eficientíssima daria conta (e a nossa Justiça, vide Conselhos Tutelares, tá longe disso). Ou seja, não dá pra botar tudo no mesmo balaio, nem declarar se um ato é correto ou não a priori. Terceiro porque existem formas de violência não-físicas assustadoras e a gente sabe que proibiçao nunca freiou os verdadeiros agressores. Quarto porque põe em cheque um total desconcerto educativo, conceitos fora de lugar, deformações de juízo, falta de clareza, alternância de posições. E por último porque, pra variar, a Lei aparece como repressão ao invés de formação. Como sempre, é mais fácil pro Estado proibir do que criar Políticas Públicas eficazes de proteçâo às crianças e adolescentes.

Ontem participei (só lendo porque a moderadora fez questão de publicar só questões muito pouco políticas) do bate-papo com a Rosely Sayão a respeito. Colo alguns trechos interessantes pra vocês pensarem junto comigo a partir das falas dela.

“Não sei porque consideramos a palmada tão necessária assim. Antes dos seis anos, por exemplo, a criança precisa de um adulto sempre por perto para evitar que faça o que não deve. depois dessa idade, deve aprender a arcar com as consequências de seus atos. Não precisa mesmo ser uma palmada...”

“O espírito da lei é legítimo: proteger nossas crianças de adultos loucos, descontrolados, irresponsáveis etc. Mas não sei se a forma é adequada”.

“Essa lei, junto com outras bem diferentes, mostram a invasão do estado na vida privada. Acho isso muito perigoso. Hoje podemos ser contra a palmada - eu sou - mas amanhã, sabe-se lá o que pode ser transformado em lei?”

“Seu texto nos leva a pensar que o pai que não bate não impõe limites. Isso é um equívoco, devo assinalar. Conheço muitos pais que dão as chamadas palmadas pedagógicas e são permissivos em demasia e pais que nunca bateram e são rigorosos na educação dos filhos...”

“Há fases da vida dos mais novos que o dialogo é impossível. Dialogar com uma criança que quer brincar em vez de dormir? como dialogar com um jovem que quer usar drogas perigosas? Na maior parte das vezes chamamos de diálogo o que na verdade é convencimento: queremos convencer os mais novos a aceitarem nossas ordens sem que pareçam ordens. O fato é: educar tem um pouco de tirania sempre. Afinal, quem disse que ir para a escola, por exmeplo, é bom para a criança? Somos nós e não elas...Educar supõe sempre imposições. Não adianta querermos tapar o sol com a peneira. Hoje os filhos são autoritários porque os pais não são. Prefiro que os pais sejam”.

“Não faz sentido ser a favor da palmada mas só quando dada por alguém em especial... os filhos não são propriedades dos pais. se vc bate, porque a babá acharia que ela não pode bater? se consideramos a palmada educativa, todos que educam podem bater, não é verdade? afinal, trata-se de uma ideia de educação que está em jogo”.

“Concordo que antigamente a educação era mais rigorosa. Mas o mundo era diferente: quase todo mundo pensava do mesmo jeito. além das palmadas, os pais tinham autoridade moral tb: um olhar dos pais bastava para brecar uma travessura... hoje, os pais e que tem medo do olhar de reprovação dos filhos...”

_ Claudia_

2 comentários:

Cibele disse...

Exatamente, Clau! Penso exatamente assim...totalmente contra as palmadas, mas totalmente contra essa lei.

A lei me incomoda da mesma forma que me incomodou o toque de recolher para menores em algumas cidades do interior.

Beijos

Claudia Souza disse...

Ci, sendo MUITO sincera, eu nem posso dizer que sou contra as palmadas, embora ache, como disse no post, que nao eduquem nem sejam necessarias. Acho uma coisa dificil de evitar. Pra quem consegue, otimo. Mas se acontece... eu compreendo perfeitamente, e nao vejo como um ato de violencia insuperavel. Tem violencias piores travestidas de atos educativos. Educar é uma coisa muito, muito complicada! Uma palmada pode nao ser tao violenta quanto um grito, por exemplo (eu sempre tive PAVOR de grito). Alias... Querer extinguir TODA e QUALQUER violencia na vida é meio sobre-humano... né nao?
Quanto à Lei, é aquilo ali que ja disse. Outra coisa.

 
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