quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Sobre galos e especialistas

Hoje, enquanto eu pagava o sorvete da minha filha, o sorveteiro viu o grande galo empoleirado na testa da pequena e contou um caso que me impressionou. O filho dele, passando o fim de semana numa cidadezinha aqui perto, caiu durante uma brincadeira inofensiva e perdeu temporariamente a visão por causa de uma fratura no crânio. Atendido no pronto-socorro local, foi encaminhado pra cá, cidade um pouco maior. Esse pai (qualquer adjetivo para o seu estado de espírito me pareceu eufemismo) dirigiu 80km em 22min e foi duramente repreendido pelo médico que o chamou de irresponsável por colocar em risco a vida de todos os passageiros.

História de apertar o coração de qualquer um, acabou me surpreendendo muito mais pela postura do médico. Tenho me indignado com diversas situações em que o conhecimento do especialista é utilizado para outros fins que não a prestação do bom e ético serviço. Professores, médicos, psicólogos e diretores de escola se utilizam das informações e aflições familiares (muitas vezes confidenciais), esquecendo-se de que informação é poder e poder exige responsabilidade. Responsabilidade é quando a gente arca, acolhe ou minimiza as más conseqüências dos nossos atos. Isso quer dizer que, um médico_ profissional de saúde e que vive a emergência rotineiramente, quando chama um pai _ comerciante e não motorista de ambulância_ de irresponsável, está, ele sim, agindo irresponsavelmente. A leviandade é a irresponsabilidade ou imprudência do julgamento emitido. A mesma informação poderia ter sido dada de outra forma, se a intenção fosse mesmo alertar para uma futura (e improvável) situação similar. O médico poderia ter julgado a ação em vez de julgar o sujeito, por exemplo.

Há na contramão, alguns profissionais diferenciados. Lembro da proprietária e diretora da primeira escola em que a minha filha estudou, que me vendo sofrer com a adaptação, me mandou um bilhetinho dizendo que a adaptação é para a mãe também. Quando me vi acolhida, estávamos mesmo fazendo parte daquela escola.

Cada vez mais, os pais se sentem seguros o suficiente para buscar as informações necessárias que contribuem muito na tarefa de educar, ao mesmo tempo em que exigem respeito ao trabalho diário e difícil de fazer crescer um filho. Todo pai ou mãe acaba entendendo um pouco de medicina, psicologia, pedagogia e outras modalidades de conhecimento, mas nenhum pai ou mãe é obrigado a agir tal qual um especialista quando a vida lhe colocar à prova. Cada pai/mãe pode e deve desenvolver seu próprio estilo para que suas ações sejam coerentes com os princípios da casa. Podem fazer diferente do outro e ainda assim acertarem todos. Podem até se dar ao direito de errar. Ganham os filhos tendo pais seguros, felizes e coerentes. Nesse sentido, o blog mothern, indispensável companheiro da minha maternidade, fez escola.

Vou fechar esse post, agradecendo ao meu vizinho Dr. João (leitor do quintarola, diga-se de passagem) por ter muito, muito delicadamente assistido a minha filha depois de um tombo feio na escada. Com grande capacidade de empatia, ele consegue se ver como pai na aflição do outro. Sorte dos pacientes dele! Sorte dos filhos dele! E sorte da minha Cecília também!
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A propósito, galo na testa é personagem indispensável da infância, né? Fiquei curiosa sobre a origem da expressão. Será que é pela semelhança com uma crista??? Quem souber, por favor chame por ô de casa perguntas sem resposta!
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Clau, estou adorando seu ritmo alucinante...
: )
_Cibbele Carvalho_

Um comentário:

Claudia Souza disse...

E' fase hihihi eu sou assim, às vezes tenho um monte de coisas pra escrever, da vontade de contar...outras vezes mergulho num profundo silencio, fico pensando com os meus botoes, ruminando as idéias.
#### (bunitinho isso!)
Sobre a historia do galo e do médico, isso tudo é tao sutil. Os profissionais envolvidos com crianças, como os pais e maes, às vezes somos infelizes nas intervençoes, outras conseguimos acertar, acolher. O importante é ter consciencia e tentar sempre melhorar, aguçar a sensibilidade. Isso a Escola nao ensina.

 
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