quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A Propósito da Universalidade da Infância...

Tenho duas experiências pra contar:


  • Logo que cheguei aqui em Milão, participei de um ensaio fotográfico chamado "A Memória dos Jogos Tradicionais". Duas fotógrafas, uma venezuelana e a outra italiana, queriam imagens de brincadeiras do mundo todo. As brincantes éramos eu (representando América), uma chinesa (Ásia), uma romena (Europa) e uma camaronense (África). Ajudadas pela língua (embora incipiente) em comum, a gente conversava muito durante as sessões de fotos, realizadas em várias escolas da cidade. E acabamos concluindo que a base das brincadeiras era a mesma: mudava o nome, claro, e algumas regras acessórias. As crianças italianas não tinham dificuldade nenhuma em entrar no ritmo das propostas, mesmo se a mediação não fosse necessariamente a língua (todas nós brincantes éramos recém-chegadas e, como não dominavamos bem o italiano, usávamos outros recursos de comunicação), mesmo porque não tinha muita novidade pra elas. Rapidamente identificavam a brincadeira dentro de seu repertório pessoal e cultural.

  • Em setembro de 2008, em Verona, aconteceu o Tocatì, Festival Internacional de Brincadeiras de Rua, promovido pela Prefeitura da cidade em parceria com a Associação de Brincadeiras Antigas. Cada ano, a organização do Festival convida um país diferente como destaque. Desta vez tinha sido a Escócia. Pude acompanhar mesas redondas, palestras, conferências, comprar livros e catálogos sobre brincadeiras, e o mais incrível foi vê-las brincadas na rua, por adultos e crianças indistintamente. A cidade foi toda transformada num grande quintal, com pistas de bolinha de gude, tatames, chão de pião, balanços, etc. De todas as brincadeiras que vi, duas merecem destaque: uma é o arremesso de queijo, brincadeira tradicional italiana.Um queijo imenso é enrolado numa corda e depois lançado. Pra vocês nao dizerem que estou mentindo, tenho a foto abaixo pra comprovar. Outra é uma brincadeira de homens escoceses. Parece um Rugby: do alto alguém atira uma bolinha, do tamanho de uma bolinha de tênis, e os jogadores, divididos em duas equipes, se jogam uns sobre os outros na tentativa de pegá-la e levá-la à base do adversário pra fazer uma espécie de gol. Era divertidíssimo assistir, porque os jogadores podem blefar, podem esconder a bolinha dentro da roupa, podem usar as estratégias mais impensáveis. Ou seja, apesar da semelhança, nada muito esportivo, tudo muito lúdico. O impressionante é que, mesmo na confusão generalizada de gente amontoada, ninguém se machuca. Existe um respeito completo pela incolumidade física. Tinha inclusive gente de óculos!!
Na maioria, eram brincadeiras já minhas conhecidas, com poucas modificações. Até a velha e boa "finca" - jogo com barrinhas pontudas da minha infância perdida no interior de Minas - eu pude reencontrar.
É fato: as crianças têm uma Cultura que avança sobre as fronteiras virtualmente construídas pra separar os Homens e pra sustentar seus poderes (igualmente virtuais). Que avança inclusive sobre o Tempo. Não existe mesmo idade pra Infância.

"Os homens não param de brincar porque envelhecem; eles envelhecem porque param de brincar" - Ditado mexicano.

_ Claudia Souza_

3 comentários:

Ju Steck disse...

Nossa, esse festival Tocatì deve ser muito interessante!

Claudia Souza disse...

E' sim! Em setembro desse ano tem mais :-))) Eu tenho muitas fotos, se voce se interessar é so' me dizer.

QUINTEIRAS disse...

Eu quero ver essas fotos sócia...aliás, assim que o caçula tiver maiorzinho, com certeza vou querer ver algumas belezuras como essa com vc...
: )

 
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