sexta-feira, 20 de março de 2009

Com que roupa eu vou, na festa que você me convidou

As roupas são, pois, uma forma de memória, mas elas são também pontos sobre os quais nos apoiamos para nos distanciar de um presente insuportável: o presente da infância, por exemplo, quando somos protegidos (eu colocaria aspas na última palavra_ Pitaco Quintarola.) pelos nossos pais. E me lembro de Jen White me falando sobre um par de sapatos que seus pais compraram para ela ir á escola. Sapatos práticos, bons, mas com os quais você tinha vergonha de ser visto. É difícil avaliar seriamente, de forma suficiente, a agonia desses momentos, a raiva, o sofrimento, o desespero. Uma identidade demasiadamente visível está lá, nos seus pés, fazendo troça de você, humilhando você. Pois você foi fabricado, produzido por um outro, colocado na libré de uma dependência abjeta...
(Stallybrass, Peter _ O Casaco de Marx – roupas, memórias, dor_ Ed. Autêntica)

Quem convive com criança já viveu o dilema: decidir o que vestir numa criança, enquanto ela se rebela frente ao guarda-roupa . Quem não convive com crianças pode se lembrar de pelo menos uma cena em que se sentiu mal dentro da roupa escolhida pelo adulto. De um sapato apertado ou talvez das sempre herdadas roupas do irmão mais velho.

Ao escolher o que vestir na criança, o adulto escolhe o papel que ela deve desempenhar. O adulto se projeta na roupa do filho. Algumas crianças andam verdadeiramente fantasiadas: Vestidos impecavelmente engomados e rodados como os de outrora? Saias curtas e saltinhos? Gravatas e suspensórios? Corte de cabelo skatista (ainda existe esse?)? Há grande sorte de personas e de certa forma não há como abrir mão delas. Vestir-se de silêncio deve ser impossível. Até a roupa branca ou o nu enunciam alguma coisa.

Alguns critérios ao escolher o que vestir são objetivos: O orçamento, os hábitos da criança levando-se em conta o conforto e a praticidade, o clima onde mora, algumas convenções sociais imprescindíveis. Esses são de competência do adulto. O problema é que mesmo nós temos tido problemas com esses limites. Compramos mais do que precisamos e abrimos facilmente mão do conforto.

Mas há critérios subjetivos. As crianças também constroem identidades e as comunicam através das roupas. E alguns desses significados escapam aos adultos ou são simplesmente atropelados pela necessidade adulta de se construir socialmente através do filho.

Lembro-me dos primeiros dias de aula da minha filha em sua escola atual. Eu insistia para que ela usasse tênis. Na minha opinião, era mais seguro para brincar. Ela insistia em ir de chinelo. Chegando lá vi que todas as outras crianças chegavam de chinelo e o deixavam num canto da sala para ficarem descalças a tarde toda. De tênis, ela deixava evidente o que queria apagar: a sua condição de novata.

É evidente a projeção nas meninas vestidas de “peruinhas”, contudo, não nos enganemos os “modernos” e descolados. É natural que as crianças experimentem diversos papéis (sobre isso, fala muito bem a Mani). E vestir a criança de alternativa, quando muitas vezes ela prefere se incluir e não se rebelar, é tão violento quanto.
Por último, há algumas heranças da cultura vestuária infantil, quase sempre adaptações aos uniformes escolares, que são geniais: sandália com meia, blusa de manga comprida debaixo da blusa de manga curta, combinações inovadoras de estampas, são algumas que me veem à cabeça agora.
A combinação da foto, pro meu gosto digna de qualquer fashion week kids, foi feita por uma criança sem interferência de adulto.
Cibbele Carvalho

8 comentários:

Claudia Souza disse...

Comment-desabafo: como DETESTO uniforme!
(ai as outras maes vao dizer: mas é pratico, mas nao estraga as outras roupas, mas minimiza as diferenças, mas é confortavel, mas isso e aquilo!)
E eu continuo a DETESTAR. E a querer cores, diferenças, estilos, escolhas.

Cibele disse...

É, o uniforme economiza esse tempo pra decisão na frente do guarda-roupa. Se bem que dá pra definir um "uniforme" próprio com a criança e economizar tempo da mesma forma.

Não estragar as outras roupas é bobagem, que pode ser resolvida da mesma forma. Minimizar as diferenças não acho válido, porque é só disfarce das diferenças. Elas continuam lá. Ou deveriam continuar, porque as escolas são tão homogêneas, né?

O único argumento que me pega pro uso do uniforme, apesar de não ser argumento suficiente, é que ele ajuda na adaptação, nesse sentimento de pertencimento a um grupo.

Soluções pra isso, sócia?

Outra coisa, esse dilema em frente ao guarda-roupa é exclusivo das meninas?

Beijos

Claudia Souza disse...

Soluçao pra isso: deixar que o processo de adaptaçao seja demorado mesmo, como convém a uma adaptaçao. As coisas precisam de tempo, e pertencer a um grupo é uma conquista. Ofato de todo mundo estar "uniformizado" so' mascara esse processo, da uma falsa impressao de inserimento.Eu acho assim.

Que nada! Dilema com guarda-roupa é coisa de menino também. Aqui em casa ainda existe, e agora (14 anos) ta mais forte que nunca.

Cibele disse...

Boa! Exemplo disso é a Ciça que apesar de uniformizada achou outros sinais de não-pertencimento...

Mas tenho um motivo irrefutável, acho, para as escolas usarem uniforme. Propaganda gratuita às custas das crianças e dos pais...hahahaha

Cibele disse...

Usarem, não, me esqueci do jargão escolês...escola não usa nada, adota.
: P

Anônimo disse...

é mais fácil para a escola controlar a segurança também, mas de fato o pessoal abusa. Na minha sexta-série, já p. da vida com o colégio, ganhei um tênis da minha mãe que era preto, como recomendado pela escola, mas tinha uns detalhes em vermelho. O seu DD, o disciplinário bravo pra caramba, me mandou pra diretoria porque meu tênis não estava no padrão. Ele também me tirou do time do colégio (que dava uma alta popularidade...rs) porque estava deixando meu cabelo crescer...
J.

Anônimo disse...

linkando o tema escola com os comentários, acho que deve haver uniforme, tem lá suas vantagens. Mas a projeção citada pela Bila no post pode se dar nos acessórios e nas atitudes. Um tênis, um cabelo cortado, uma pulseira, sei lá. Acho que dá pra atender à praticidade do uniforme, dá pra ajudar no pertencimento, mas tem que respeitar a individualidade de cada um que se apresenta nesses pequenos detalhes.J.

Cibele disse...

J,
Ali era o uniforme no sentido mais radical do termo, né? Uniforme, fila, silêncio...Seleção pra entrar...Tinha até uma história de que a escola era responsável pelo aluno enquanto ele estivesse de uniforme...ela podia interferir na atitude dele há 2 quarteirões de lá, caso ainda estivesse insitucionalizado pela roupa. Coisas de escola religiosa tradicional...mas a gente sempre soube se rebelar...hahahaha

É...dá se um jeito de se expressar apesar do uniforme, né? Mas ele sempre vai enunciar a proposta da instituição para os alunos...

 
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