sexta-feira, 20 de março de 2009

Multi-cultural ou trans-cultural?

A gente tem falado em "Infância" num sentido universal, partindo daqueles pontos em comum que todo menino no mundo tem com os outros meninos. Temos também pontuado a existência de uma Cultura da Criança, do Brincar, que segundo nos parece, é universal.
E eu tenho vivido aqui na Itália um momento de perplexidade diante do aumento do racismo, da xenofobia (mais explícitos por causa da crise econômica, mas sempre latentes), coisas que na minha ingenuidade de recém-chegada, a Europa já tinha superado depois do holocausto.

Hoje existem mais de 4 milhões de estrangeiros vivendo em solo italiano. Quase 10% da população total do país. Gente do mundo inteiro. Gente que migra fugindo da pobreza, das péssimas condições de vida, das guerras; gente que sonha com uma vida melhor em outras terras. Diariamente eles chegam às centenas, em grupos ou isolados, muitas vezes arriscando a vida. Vem dos países do leste europeu (a maioria), da África setentrional e meridional, da América Latina... Muitos entram ilegalmente. Outros tapam os buracos da economia do país rico em trabalhos árduos e assim conseguem a legalidade. E é claro, os ciganos, andarilhos históricos, aqui conhecidos como Rom ou Sinti.
Poucos vem como eu, por opção. A maioria dos estrangeiros está aqui porque em seu país de origem a vida ficou insuportável.
Nas ruas de Milão a gente já vê a diversidade de tipos, de olhares, de layout, de costumes, de línguas e tenderia a dizer (também ingenuamente): - Que linda essa profusão de cores! Mas depois você observa bem e se incomoda porque não existe mistura, quase todo mundo é "puro", é "típico" demais... (Bendito Brasil!)
Milão é uma cidade cosmopolita. Multi-cultural. Aqui voce sai do restaurante senegales e entra no mercadinho japonês num pulo. Acha de tudo, do mundo todo. Dá até impressão de uma total interação (em termos de produto, pode até ser). Mas é só impressão. Porque a gente percebe claramente como cada comunidade vive entrincheirada no seu mundo. Como a população local teme o estrangeiro. Como o estrangeiro teme a população local e os outros estrangeiros.
A imprensa e as autoridades italianas, ao invés de contribuir para a diminuição desses fenômenos nocivos que já levaram a Europa a cometer tanta loucura, botam lenha na fogueira e não é raro a gente escutar incitações explícitas nos telejornais ou nos discursos dos políticos.
Enfim, clima de caldeirão fervente.

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Acaba que quem leva a pior nessa história são, como sempre, as crianças. As Escolas até que tentam minimizar o "problema" (aqui na Itália imigrante ainda é problema) com diversos programas de "mediação cultural", defendendo a multi-culturalidade. Existem diversas ONGs a respeito, e diversos intelectuais em campo em defesa das crianças imigradas.
E existe acima de tudo a Comunidade Européia que, por principio, é inclusiva: segundo as Leis européias, toda e qualquer criança, mesmo que não esteja em condições legais no país, tem direito de inscrever-se em qualquer escola pública do território europeu, bem como qualquer pessoa tem direito de usufruir do Sistema de Saúde público local amplamente.
Tudo isso é excelente. Mas não resolve a questão de fundo, que é a barreira ideológica entre as diversas pessoas, que se manifesta no temor mútuo. As crianças estrangeiras aqui sofrem situações diversas de "estranhamento", pra não falar de preconceito mesmo em relação a algumas raças e nacionalidades. Tudo isso é visível, embora as professoras se esforcem (a maioria) pra ser/parecer espontâneas, e as outras crianças se vejam em meio ao turbilhão de sentimentos que significa conviver com um dito "diverso", por elas não reconhecido como diverso, muito menos como perigoso. Porque, pras crianças mesmas, essas barreiras são fictícias. Elas brincam juntas, arrumam um modo de se comunicar, interagem naturalmente. Benditas crianças. Na Cultura delas o movimento é Trans, e não Multi. Tem idas e voltas. É vivo.



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Procês verem. Aqui se alguém casa com estrangeiro é chamado de "coppia mista". Um dia, um menino perguntou pra professora o que era e ela respondeu: _ É um casal de um homem de cor e uma mulher branca, por exemplo. E ele: _ Achei que era de um homem e um robô, por exemplo.

14 comentários:

paula disse...

ops correcao! ...", bem como qualquer pessoa tem direito de usufruir do Sistema de Saúde publico local amplamente." Na verdade pode usufruir somente do PRONTO SOCORRO, nao tem direito a nenhum tipo de consulta ou exame... agora volto a leitura porque o texto esta otimo!

paula disse...

Que beleza de texto! Oque me deixa louca é quando falo com minhas amigas italianas "iteligentes" e elas me dizem : Mas olha Paula, la na tal escola é um problema porque ta cheio de crianca que nao fala italiano e acaba atrasando muito a classe inteira... mal sabe elas o quanto essas criancas podem acrescentar culturamente para essas classes!

paula disse...

ops! quantos erros de digitacao que fiz, so agora vi! sorry!

Claudia Souza disse...

Boa correçao, Paula. O meu "amplamente" se referia aos hospitais nao aos serviços. Mas de todo jeito o povo resolve as coisas. Uma conhecida minha, brasileira,imigrante ilegal, faz suas consultas normalmente no hospital aqui de perto (de Pronto Socorro) e o médico de la da a ela um "ticket" que ela usa pra pagar o preço minimo dos exames como se fosse legalizada.
Sobre essas maes, pois é, numa escola onde trabalhei as professoras me disseram que muitas maes italianas estavam tirando as crianças de la porque "tinha muita criança estrangeira". Fico pensando se as proprias escolas, muito presas aos seus conteudos e programas, também ajudam pouco na possibilidade de "acrescentar culturalmente" como voce disse. "Mediaçao Cultural" aqui é atividade "extra-classe", nao entrou dentro do curriculo...

Anônimo disse...

Bacana o texto. É uma oportunidade perdida,realmente. J.

Chris Sampaio disse...

Ops, vou entrar nessa conversa aqui também..
tava ali pensando no que a Paula disse sobre " o quanto essas criancas podem acrescentar culturamente para essas classes!"

sabe o que é...ando matutando um tanto sobre escola pública no Brasil. pensando sobre até quando teremos que educar nossos filhos "fechados" na convivência com uma pequena elite que tem acesso à escola particular. (é claro, a educação não passa só pela escola, mas é lá que as crianças passam boa parte do tempo anyway)
não conheço aqui na nossa cidade (digo BH) uma proposta de convivência entre grupos culturalmente e socialmente diversos, sendo desenvolvida por exemplo numa escola particular...me parece que só na escola pública isso é possível??? queria escutar um pouco de vcs sobre esse tema...espinhoso, talvez. as tentativas que observo de interlocução, geralmente são artificiais, talvez porque mediadas por adultos e não pelas próprias crianças...
bjs
chris

Claudia Souza disse...

Chris, essa questao é muito complicada mesmo no Brasil. Conheço muita gente boa que esta optando pela Escola Publica pra garantir esse lado, topando inclusive perder em conteudo. Acho uma opçao super interessante e corajosa. Nao tive coragem de toma-la com relaçao ao meu filho, mas procurei escolas particulares que de algum modo lidassem com a cultura popular. Agora, depois dessa experiencia aqui na Italia de Escola Publica, acho que faria diferente. Escola hoje nao é tanto lugar de conteudo, mas de construçao de cidadania. E cidadania so' se constroi na diversidade e na coletividade. Conteudo o mundo da e sobra!

Chris Sampaio disse...

talvez seja por aí, Claudia, conteúdo o mundo dá e sobra...e as escolas particulares que acompanho aqui - através do meu trabalho - estou perplexa...é tudo voltado para o conteúdo, para as disciplinas, a fragmentação do saber, as crianças estão sempre sobrecarregadas de tarefas/projetos e desde bem pequenas são preparadas para o vestibular e não para a vida..entende!! outro dia, fui conversar com um grupo de pais numa escola do Espírito Santo, fiquei chocada de perceber a reação deles quando eu falava sobre crianças da África que estão fazendo a diferença, que estão atuando de forma ativa em suas comunidades, etc....a classe média ficava me olhando tipo assim:: o que nós temos a ver com esse povo lá da África..estamos aqui na nossa ilha da prosperidade...?? depois chegou o diretor pedagógico, falando sobre os DEVERES das crianças, sobre como os pais devem dizer não - mas, ele não explicava sobre a importância da gente aprender a conviver com a frustração..etcc.sei lá..tó questionando muito esse "modelo" brasileiro que valoriza mais os títulos (de graduação, pós-graduação) do que a vivência, a participação na coletividade..etc..
fico feliz de saber que vc também acredita na escola como um lugar de construção para a diversidade e a coletividade..tó caminhando nessa direção também ..bjs

Claudia Souza disse...

Entao, Chris. As vezes o "SISTEMA" parece tao complicado e bizarro que a gente se sente sem condiçao de mudar ou de agir de outro modo. Mas nao podemos entrar nessa, afinal pode-se sempre fazer micro-politica. Essa coisa do Vestibular ai no Brasil é mesmo uma loucura (na Universidade publica entram basicamente as pessoas que tiveram condiçao de pagar escola elementar privada, ou seja, a exclusao esta até no que é - devia ser - publico)e voce tem razao ao apontar essa coisa do academicismo na Educaçao brasileira como um gravissimo problema. Voce ja ouviu falar da Escola da Ponte de Portugal? E' um otimo exemplo de como essa tendencia conteudista e academicista pode ser superada em nome da construçao da cidadania. Nao que seja IDEAL, isso nao existe, mas que é um grande avanço nesse sentido, é.

Chris Sampaio disse...

sim, claudia
conheço o trabalho da escola da ponte
também sei que o Zé Pacheco está por aqui em BH, no Libertas.
é isso, temos que atuar no nosso micro cosmo para não sermos "engolidos" pela sensação de impotência ou imobilismo

Claudia Souza disse...

E', o Zé Pacheco sabe levar um projeto avante. Mas ai no Brasil, em nivel publico, até ele nao sei se conseguiria. Mesmo assim, espero que ele ofereça sua experiencia também pras escolas publicas ai de BH...tem tanta gente boa trabalhando pro Estado e pra Prefeitura. Em pequenas doses a coisa ta caminhando, mas o Sistema como um todo é muito complicado. Vamos ser otimistas.

Cibele Carvalho disse...

Clau,
Aqui está em cartaz um filme bem legal, "Entre Les Murs" que ganhou a tradução de Entre os Muros da Escola, vc viu?
Não são crianças, são alunos-adolescentes, mas aparece bem essa questão da imigração na europa e da xenofobia. Eles se tratam pela nacionalidade: o coreano, o antilhano, o árabe...
Só fiquei pensando sobre uma coisa...é bem verdade que as crianças tendem a estar mais imune aos preconceitos, mas, como diria Benjamim, como não são Robsons Crusoés e acabam ouvindo os comentários preconceituosos dos pais na sala de jantar, apreendem que a barbie loira é mais bonita e tals, acabam tb reproduzindo isso por aí. Tenho visto tantas crianças preconceituosas!!! Uma pena!

Claudia Souza disse...

Nao vi nao, vou procurar...
Entao, é verdade, tem até um video muito triste sobre isso: http://www.youtube.com/watch?v=PKqSPf-hKR4
Sao mesmo introjeçoes. Mas aqui na Italia nao vejo muito isso nao, vejo as crianças brincando juntas e os adultos preocupadissimos. Pode ser uma falsa impressao minha, nao convivo cotidianamente nas escolas...Ja os adolescentes, da idade do Davi pra cima, ja rola muito preconceito, explicito.

Cibele Carvalho e Claudia Souza disse...

Deve chegar na criança mais tardiamente, né, Clau? Como o "problema" é recente na europa pós-eugenismo...

 
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