domingo, 3 de maio de 2009

Família, família, "família" ...

Pegando carona nessa discussão que a Cibbele levantou sobre ser pai/mãe hoje em dia, queria colocar na roda um outro ponto: as articulações que fazem, dentro das famílias, o "sagrado" e o "profano".



A palavra família sempre foi, e é, muito ligada ao "sagrado". As referências são sempre fortíssimas, família é coisa amoral, "de fé", quase religiosa. Pai mãe e filhos - parece o círculo perfeito, que "expulsa" o que é de fora. A própria propaganda de margarina. A perfeição. Cada uma com o seu estilo, as suas crenças, as suas peculiaridades, as suas lembranças, a sua história que vai sendo construinda dia após dia. E como isso, sendo "sagrado", é forte! Já ouvi dizer (e não lembro a fonte) que somos reféns das nossas famílias de origem. Haja sessão de psicanálise pra, ao menos, movimentar um pouco as peças no tabuleiro!
(Imagem: Sacra famiglia, de Caravaggio)



Já o profano vem apontando como possibilidade familiar só no final do século XX, início do XXI. As famílias estão se reconfigurando. As pessoas já têm feito escolhas mais pessoais, têm se permitido encontrar o "de fora" - sacrilégio! - e até gostar. Até gostar mais! Isso pode ser um problema, pois significa "trair" a sagrada família. Mas depois, passadas as primeiras tempestades, pode ser muito divertido.



Nota de rodapé: É muito divertido comparar a Cultura Italiana com a Brasileira. Um simples passeio por Veneza te faz compreender como eles se pautam por séculos de repetição (de "sagrado") e nós nos reiventamos a cada Carnaval (mais "profanos" impossível). Bom mesmo é poder viver as duas coisas em concomitância, sem hierarquia. Nas famílias modernas, a concomitância do Sagrado com o Profano pode ser uma saída.

Obs.: Tenho uma implicância inatural por Arte Sacra, portanto Veneza pra mim pode ser insuportável dependendo do ponto de vista. Mas caminhar pelas vielas, olhar as roupinhas penduradas de fora das casas, as gôndolas, os canais, pode ser de uma beleza inconcebível :-P



_ Claudia Souza _

5 comentários:

QUINTEIRAS disse...

Pois é, mais do que nunca, devemos nos preparar para aceitar a diferença no filho, né? Cada vez mais eles estão livres para fazer escolhas com referências mais diversificadas...E vamos apostar na educação do critério, no lugar do conteúdo...mas pra isso, sem a coersão da tradição, só muita coerência...não é mole, não...

Claudia Souza disse...

Então, Ci, você compreendeu bem o uso desses dois termos, sagrado e profano, nesse contexto. O sagrado tem a ver com o que é intocável, protegido, divinizado. O profano com o que é subetido a um olhar crítico e questionador. Esperemos que as famílias modernas consigam se construir superando a cegueira do sagrado e utilizando o que é bom na tradição, e que a crítica possa entrar com muito critério em seus territórios. Acho que buscar a coerência, a saúde emocional, a clareza e averdade dos nossos sentimentos pode ajudar muito nesse sentido. Realmente, a tarefa é árdua, mas deve valer a pena.

ediltonsiqueira disse...

pode pesar aí, também, uma réstia da família atômica pensada (talvez modernamente) como ideal.

átomo é indivisível, família atômica idem, daí que partículas semelhantes formem as moléculas dos elementos e partículas distintas não sejam tão fáceis de acomodar em novos compostos.

em que pese a fragmentação da pós-modernidade (de Freud a Einstein e tome bolo de goma), muita gente persiste em considerar a sacralização dos perfis ideais (repito, talvez modernos) como um fundamento de estabilidade para o cotidiano, o que torna a repetição um artefato caro e, muitas vezes, sagrado, intocável.

dito de outro modo, é como se a teoria do 'em time que ganha, ninguém mexe' pudesse ser aplicada da infância dos filhos até o leito de morte. por mais que haja nov@s jogador@s escalad@s, sempre irão para o banco, quando não pro chuveiro mesmo.

resta saber se isso resiste a um mundo de cruzamentos étnicos e culturais, de casamentos abertos e traições escancaradas, de fundamentalismo religioso e darwinismo radical ;)

Claudia Souza disse...

Oi, Ed. Espero que não resista! E que as famílias possam estar sempre sob análise. Que sejam revisitadas, criticadas, "profanadas", viradas do avesso. Com ternura, claro, porque são muito preciosas. Assim todo mundo cresce, se dá chance de crescer. Beijos e obrigada pelo lindo comentário. Adoro o jeito que você escreve, seja muito bem vindo ao Quintarola e POR FAVOR, venha sempre contribuir aqui!!

Cibele disse...

Oi, Edilton,
Mais uma que gostou muito do seu comentário... ou da sua prosa, pra estar mais de acordo com o quintarola...volte sempre!
PS: Bolo de goma é um bolo da culinária do nordeste, não é isso?

 
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